terça-feira, 1 de julho de 2008

Desafio a zero grau

Depois de muito treino, era hora da brincadeira começar. Saí de Floripa sexta a tarde em direção à Urubici. Já no caminho o céu parcialmente aberto deu lugar a uma chuvinha fraca, mas chegamos à cidade sem chuva e até vimos umas estrelas.

Saímos para jantar no lugar de sempre e voltamos para a pousada para preparar a largada. O William foi só para acompanhar e faria nosso apoio: todos preparamos uma sacola com coisas, a minha foi de longe a maior, com tudo duplicado e em excesso, de meia até boné reserva e comidas.

Na madrugada, lá pelas três e meia, acordei com trovões e muito barulho de chuva. Coisa feia. Já havia chovido a semana toda, as trilhas já estavam encharcadas mesmo, mas largar com temporal não seria legal. Voltei a hibernar e as cinco estava tudo quieto, sem chuva. Aí as seis e meia desabou água de novo, mas parou antes das 7, quando saímos da pousada rumo ao ginásio de esporta, largada da prova.

Tomei cafá da manhã decentemente e me preparei com roupa comprida dos pés à cabeça, mas antes de largar achei demais a calça e troquei por uma bermuda de lycra debaixo do calção.

Preparamos na largada, checamos os equipos obrigatório e lá fomos para o 5o Desafrio Urubici, 50 Km montanha acima e abaixo, dessa vez com tempo instável.

Larguei conforme planejado, bem forte e logo sumi lá pela frente, ainda via os líderes no Km 1, mas a FC estava bem alta, quase 180, aí diminuí um pouco e passei no Km 3 a mais ou menos 4min30seg/Km. Aí segui mais precavido e começaram as estradas de terra com ondulações positivas, até a primeira morranca, bem curta, onde a RBS parou o carro bem no meio da estrada pra filmar, só deixando meio metro de um lado para passagem dos corredores. Desci, visualizei o percurso com névoa acima, mas ainda sem chuva e entramos nas trilhinhas. Passei a ponte pênsil que tanto pavor causou na Taty e segui já atravessando rio e encharcando os pés. Toda a economia de umidade foi por água abaixo.

No Km 8 começou a garoar, no 11 chegamos na subida da pior trilha do percurso. Pouco antes disso fui desviar de umas poças grandes e enterrei a perna esquerda até a canela num charco.

Segui ainda trotando piramba acima e pisei num tronco ensebado de musgo. Pronto, botei peso no pé e escorreguei bonito, despenquei com a perna num galho pontudo e bati o joelho no tronco, caí rolando na trilha. Susto, levantei rápido e segui caminhando forte acima. Tudo latejava na perna, deu um pequeno corte na coxa e o joelho doía, mas fiquei com medo de esfriar e continuei. Logo depois do fim da subida brava o joelho adormeceu e segui em frente tentando acelerar o passo até o véu de noiva, pois até lá o terreno era semi-plano, mas a lama não deixava, esquiava até no plano em passos curtos.

Cheguei na famosa cahoeira e entrei na água até os joelhos pra limpar o barro das pernas e segui para o PC1, no Km 15,5, já na estrada que levaria até o alto do morro da igreja. O William, exemplo de companheirismo, estava lá a fotografar e nos apoiar. Insistiu pra pegar mais roupa, pois lá no topo estava zero grau com chuva. Achei exagero, tomei coca-cola e saí mastigando uma banana, sem pegar nada na minha sacola.

O começo do asfalto é punk, bem inclinado, então foquei na FC a 170 e segui correndo enquanto não passava disso e andando sempre que ia acima. Corri quase sempre, e ia bem mais rápido do que andando rápido. Continuei já no meio da neblina grossa. Muito louco correr daquele jeito, uma estrada empinada pra cima que parecia furar as núvens e nós lá subindo aquilo na maior chuva. Ora via um atleta, ora somente ouvia, mas sempre num curto alcance. Comecei a cantarolar Infinita Highway, pareceu propício.

O William me alcançou de carro e me deu gatorade e o tapa-orelha, cuja temperatura já deveria estar negativa àquela hora. Logo passou um corredor descendo, prestei atenção no número, era azul, ou seja, individual e não dupla. Estranhei, faltavam 8 km para o topo, ou seja, o cara estava 16 Km na minha frente ! Demorou a vir mais gente e logo vieram os outros 5 primeiros colocados todos meio próximos. O primeiro tinha disparado. Quase todos estavam só de regata, achei que zero grau era mesmo exagero. Mas só até breve, pois um vento da esquerda começou a me empurrar pro lado e congelar as bochechas e os dedos da mão atingida.


O topo se aproximava em 2h30min, aí lembrei da última subida, onde descemos uns 70 mts em desnível para subir de novo. Como não dava pra ver, os incautos de primeira viagem devem ter se surpreendido bastante... Cheguei em cima com 2h46min e passei pelo William que esperava com a Rita no quentinho do carro. Fui no PC e tentei tomar uma sopa, mas o copo de isopor saiu voando da mão da staff, parecia ser o último, não achavam outro, aí tomei coca-cola mesmo e já congelando desci correndo rápido. Não era que o termômetro lá em cima marcava mesmo zero grau ? Inacreditável, na chuva e naquela ventania, estava ainda suportável, embora muito frio, só com uma camisa comprida de termopro e outra camiseta por cima... Mas se não fosse o tapa-orelha, estaria com uns cacos secos ao lado da cabeça agora...

Obedeci ao William e fui primeiro no PC e na volta pedi uns powergel e continuei correndo, mas esqueci do William, que ainda teve que sair do carro e revirar a sacola no porta-malas. Teve que vir correndo uns 200 mts até me achar, todo encapotado de anorak. Companheiro bom, esse. Não troquei tênis, o mesmo podre da subida iria descer.

Tentei descer bem, fui pegando ritmo, os joelhos estavam bem duros, mas ia rápido. Passei o Hélio subindo logo no início, logo depois o Thiago e bem depois a Taty. Todo mundo feliz e enregelado.

Segui bem morro abaixo, ia marcando o ritmo nos Km, ficavam entre 5 e 5:20 min/km, média boa pra um mau descedor que nem eu. Logo chegava no PC do véu da noiva de volta, desci bem rápido até lá. Comi uns pãezinhos e mais coca, aí a Débora me passou. Atrevido, saí atrás pra buscá-la, entrei na trilha de volta cheia de pedregulhos e tropeçando cheguei nela e num povo de novo. No Km 38 não consegui manter o ritmo deles e segurei pra não quebrar de vez. Comecei a fazer contas e mais contas, botava o ritmo médio de 7km/min e tentava prever o tempo total da prova, a cada Km o tempo diminuia, começou com 5h50 no 38 e foi descendo, sinal de que o ritmo melhorava.

Do Km 40 em diante, a Grande Descida me aguardava. Sempre desci aquilo andando nas outras vezes, isso com sol. Dessa vez desci correndo no lamaçal, fechando os 2 Km em incríveis 6min30seg/Km, ótimo para um descedor mediano. No último posto dágua estava com fome de verdade. Eu tinha comido pouco e só tinha gel agora, perguntei pra fiscal se ela tinha biscoitos e ela me ofereceu um saco de cheetos. Enchi a mão e saí comendo, mas me arrependi e devolvi tudo sem processar, antes de me arrepender profundamente. Melhor não arriscar, onde já se viu chips no meio da corrida !

Passei no Km 42 e fui indo, sempre pensando em andar um pouco no próximo Km, mas o Km vinha e não parecia necessário, seguia correndo devagar, mas correndo sempre. No Km 46 resolvi andar um pouco pra tomar água e gel. Voltei a correr e no 48 fiquei realmente muito cansado. Queria descansar, então fui desacelerando... Mas já estava dentro da cidade ! Peraí, vai descansar lá na chegada, preguiçoso ! E se vier um da mesma categoria logo no encalço ?! Acelerei pra acabar rápido, virei um dos KM a 5:30/Km e logo vi a chegada.

Escutar a chamada pelo nome a 200 mts do pórtico dá um adrenalina danada, acelerei não sei como e cruzei a linha de chegada às 5h37min de corrida, FC média de 164, um tanto emocionado. Apesar daquela tranqueira toda, lama, frio e ventania, acertei o alvo na casa das 5h30 min. Sensação indescritível.

Recebi a medalha de participação, o pessoal estava lá, a Laís veio correndo da pousada quando escutou meu nome no microfone, a Daiane ficou lá escondida do frio com o Arthur, chegada perfeita.

Fui tomar uma sopa e quando saí da muvuca o Hélio já estava lá, em 5h39min, também dentro da nossa expectativa. Mandamos muito bem !

Corri pra pousada, banho bem quente, uma alongada nas pernas e voltei pra chegada. Em poucos minutos lá vem o Thiago, fechado o primeiro desafrio dele, e a primeira prova acima de 30 Km, em 6h16min, excelente. Chegou inteiro. Aí o William começa a fitar o horizonte... É a Taty, lá vem chegando. Chega como sempre elétrica e pulando, ficou em 4a colocada na geral feminina em 6h20min, também excelente na sua primeira vez !

Reunimos a turma toda, fomos almoçar na churrascaria ao lado da chegada e da pousada, tudo muito perto na metrópole. Aí fomos descansar, enrolar e esperar a hora da premiação. O Hélio vem me dizer que fiquei em 3o na categoria !!! O 5o geral era da M4, minha categoria, então não pontuava na específica. Tinha um cara com 5h cravadas e outro a 48 segundos à minha frente ! Caraca, menos de 1 seg por Km !

A Taty foi lá pegar o troféu e ganhou também um saco de pinhão e uma garrafa de vinho, que seriam devidamente consumidos mais tarde. Na premiação da M4 anunciaram outro atleta em terceiro, protestamos e o diretor da prova nos mostrou a planilha da categoria que esquecia o corredor das 5h, me botando em segundo. Confusão resolvida fui ao pódiu pegar o troféu e fomos jantar.

Logo depois, todos reunidos ao redor da lareira, para tomar vinho e contar das aventuras do dia. Até pinhão selvagem na brasa teve. Há quem diga que a corrida é só desculpa pra essa hora. Não sei...

Terminado mais um Desafrio, o saldo da AndarIlha é espetacular. Todos inteiros e felizes, nada de dores estranhas, colocações notáveis e astral sempre alto, coisa boa. Valeu muito, parabéns pra todos nós !!!
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Resultados
  • Geral masculido: 28/76
  • Categoria: M4 3/9
  • Subida: 2:46:49
  • Descida: 2:51:08
  • Total: 5:37:57
  • FC média: 164 bpm
Fatos
  • Desistiram menos pessoas do que nas outras provas. Quanto pior, melhor ?!
  • Reportaram vários corredores embrulhados na manta térmica no trecho final...
  • Unha perdida no dedão direito

3 comentários:

  1. Cara, foi minha primeira grande prova, terminei em 7:11. Um dia eu cheugo no estágio em que vc está. A corrida foi realmente excelente. Nunca havia visto subidas como aquelas. Aqui em Goiânia é tudo muito plano, quando eu falo sobre as subidas o pessoal acha exagero, mas deixe, um dia eles vão até lá. Abrraços.
    Bethoven - Goiânia/Go

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  2. Ricardo Nishizaki8 de julho de 2008 23:55

    Eitcha! Parabéns pelo pódio! Grande corrida, a mais difícil mesmo pelo jeito! Meu primeiro desafrio foi uma gelada, mas fiquei feliz de ter terminado e sobrevivido. Acho que tu fez a estratégia ideal mesmo. Como você, prefiro subir a descer, mas não corri forte no plano e subi de forma muito conservadora, com medo do que vinha pela frente. Acabei travando na descida por absoluta falta de jeito com barro, lama e pedra escorregando. Mas estou contente demais, por mim e por todos que tiveram a oportunidade de participar dessa loucura! Parabéns de novo!

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  3. E aí Rafael, te vi correndo lá...

    te filmamos bastante...hehhehe

    apareceste na matéria que foi ao ar no último RBS Esporte...tenho aqui o DVD oficial da prova...se quiseres uma cópia. Nossas imagensa da rbs não posso te dar, infelizmente.

    abraço e parabéns pela prova.

    meu e-mail - rcfaraco@yahoo.com.br

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