segunda-feira, 22 de setembro de 2014

2ª Etapa do Catarinense de Duathlon - Blumenau

A última vez que eu tinha ido a Blumenau pra correr foi a primeira, na meia-maratona de 2009. Ontem voltei lá pra visitar minha prima e correr a segunda etapa do campeonato catarinense de Duathlon, novamente nas distâncias 5 - 20 - 2,5.

Fui no sábado e me enrolei todo pra achar o local (muito fácil, mas difícil debaixo do dilúvio que caiu no fim de tarde e sem GPS). Cheguei lá o simpósio havia terminado, mas o Puma me explicou todos os detalhes e me entregou o kit que havia retirado pra mim. Tudo aparentemente tranquilo, fui pro hotel e saímos pra jantar, a Daiane e o Arthur foram no sushi e eu comi salmão com batata doce.


Acordei às 6, tomei café com suco de laranja (não façam isso jamais antes de prova intensa) e fui pro complexo esportivo do Sesi. Que lugar sensacional, tem pista de atletismo emborrachada, piscinas olímpica e semi, quadras de tudo que é jeito, alojamento pra atletas, e espaço pra todo lado.

Estacionei, tirei a bike e enchi os pneus. Dei uma voltinha e encostei a máquina no carro, fui arrumar umas tralhas e um barulho de vazamento de ar chamou minha atenção. Pensei logo, "Ih, alguém furou o pneu.." mas vi que não tinha ninguém perto. Encostei o ouvido e era o traseiro. Incrível, que beleza ! Mas era cedo, e chegar cedo é pra imprevistos, então troquei tudo calmamente. Só que tive que lançar os dados. Tinha duas câmeras na bolsa: uma remendada com um pedaço de remendo descolado e outra estranha. A estranha estava 'nova', mas quando enchi pra ver formou uma 'coisa', tipo um batata enfiada dentro da câmera, ou então parecido com uma sucuri depois de comer, com aquela protuberância no meio do corpo da cobra. Escolhi a remendada.

Aqueci legal e fui pra largada. Alinhei na frente mas a largada era em curva, então depois da buzina me vi entalado entre a pista e o canteiro central da rotatória, saí dali rápido e soquei a bota. Corri forte até ver a subida e lembrar que o Puma tinha dito que a ida era subindo e a volta descendo. E era tudo subida, leve mas subia.

Foram duas voltas, no final da segunda passei o Fabrício e fui chegando perto do Luiz. Só conhecia esses dois mesmo na prova hehehe. Pouca gente de Floripa, o pessoal da ABTRI dominou a prova. No último retorno deu pra ver que tinha mais de uma dúzia de atletas na frente.

Entrei na T1 e saí rapidamente, pulei na bike sem parar dessa vez e segui rápido pra alcançar alguém. Demorou um km e cheguei no Luis, aí mais alguém veio, revezamos um pouco e apareceu mais um e aí lá perto do retorno chega o Fabrício, que seguiu puxando em perseguição ao primeiro pelotão, estávamos no segundo e o grupo foi crescendo até começar a andar como uma massa única. E andava, 45-48 no plano, subindo rápido e descendo alucinado. Tive um susto na curva, quase fui pra outra pista por ter entrado muito rápido.

Foi um pedal tenso. Não tenho tanta prática em andar forte em pelotão e o percurso não era trivial. Acabei puxando quase nada e ficando lá atrás, confortavelmente sendo rebocado pelo pelote. Coisa absurdamente mais fácil que é pedalar desse jeito. Não dá pra entender ou aceitar quem anda em pelote em prova sem vácuo, mas isso é assunto pra outro texto. Aquilo ali não é o seu pedal, é o do grupo, e sozinho você não faria aquilo, sacou ? Claro, em prova com vácuo essa é a ideia e é mérito seu se meter num pelote forte, tem que nadar ou correr bem antes e tem que saber pilotar a bike minimamente.

No final da segunda das três voltas dois caras do pelote enroscaram os guidons e caíram em cima de um outro que vinha em sentido contrário. A 'sorte' é que foi bem num topo, então o encontro foi com a menor velocidade possível. Os três se estabacaram e logo depois vi outro atleta sendo atendido pela ambulância. Só tinha visto strike maior em caiobá em 2012. A coisa continuou tensa mas eu arrisquei comer um gel. A terceira volta foi mais forte ainda e o pelote começou a esfarelar próximo à transição. Não deixa de ser um movimento social interessante um grupo desconhecido competindo entre si se ajudando mutuamente dessa forma. Que nome tem isso Vagner Bessa ;-) ?

Voltando à prova, saí pra segunda corrida atrás do Luiz, Fabrício e do Chico de Jaraguá. Passei o Luiz na subida e no retorno estava totalmente embrulhado lembrando com frequência crescente do suco de laranja. Repito: não tome suco de laranja antes de prova intensa. Em garopaba eu já vomitei em cima do aerodrink.

Voltando de novo, arranquei a faixa do monitor cardíaco e comecei a descida, era apenas uma volta. Logo o Luiz passou e abriu, fomos chegando no Fabrício mas a coisa terminou assim mesmo, sem alterar posição desde o pelote.

A área de dispersão estava excelente, frutas, isotônicos e chopp. Em Blumenau, não poderia faltar. Depois de tomar Whey e comer umas coisas tomei dois copos. Tipo assim, um R4 feito na hora :-). Tinha também um stand com garmins à mostra e pude ver o Fênix 2, o próximo brinquedo na lista dos desejos. Organização excelente, local excelente, percurso que não é de graça, tudo nota dez.

Aí fomos pra premiação, pelas contas e conversas eu havia ficado em décimo e 1º na categoria, e assim foi. Quando começou é vi os troféus, uns canecos de vidro impressos com os dados da prova, muito, muito legal. Finalmente um troféu ÚTIL :-).

Buenas, depois foi encher mais um pouco de chopp no troféu, tomar e ir pro hotel pegar as tralhas e de lá pro almoço com a família toda, um baita dum dia !

Deveria ter ficado só nisso
O rio, passamos sobre ele numa ponte no ciclismo
Dia azul cedinho
Não começou bem mas terminou muito bem
O isotônico dos campeões 
Não há troféu mais útil
Deveria ser eu aí, hahaha

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Maratona de Santa Catarina 2014 - no fio da navalha

Depois de 4 anos sem uma maratona oficial, eis aqui outra pra matar a saudade. Maratona não deveria deixar saudade, mas deixa. Uma prova além da distância razoável, mas muito menor do que as absurdas ultras. Ainda é possível forçar, fazer um ritmo forte. Mas tem que saber que vai doer. Porque não tem jeito: uma maratona de ironman ou trilha vai ser sempre mais fácil que do fazer em alta intensidade o bate-estaca cadenciado e eterno de uma maratona 'plana' no asfalto. Uma só exigência de musculatura, a ponto de pisar numa pedrinha lá pelos 40 km e sentir as pernas não responderem à uma mudança mínima no movimento.

Então eu deveria ter me preparado direito. Só que não. Acabei encaixando a maratona como a terceira de uma séria de provas, o mountaindo costão com 22km de trilhas e um duathlon extremamente ardido. E aí uma semana de treinos leves e uma pré-prova de guloseimas farináceas que deixam qualquer um estufado. E ainda assim o resultado foi bom. Muito bom. Eu passei algumas horas depois da prova pensando se gostei ou não e a conclusão foi que gostei muito. Embora bem longe do alvo, o resultado foi fruto de uma estratégia arriscada (e portanto incerta) e do máximo esforço para a situação. Assim, vamos à Maratona SC 2014 !

Alinhei à frente depois de algum aquecimento dinâmico e larguei controlando o pace o tempo todo. Logo de cara passamos pelo túnel e aí tasquei o lap no garmin, de forma que nunca mais a marcação de kilometragem bateu, mas tive como controlar o pace no início. E então foram-se os 12 primeiros km, uma ida e volta até o trevo da seta no final da baia sul. Ritmo dentro do previsto. Na verdade, não muito. A sugestão do Roberto foi tentar fazer uma prova progressiva, algo entre 4:25 a 4:15 até uns 15 km, aí apertar para 4:15 e ver o que dava pra fazer depois dos 32 km. Aí eu pensei: 4:16 é um pace para sub-3. 4:15 é melhor ainda, mas se for fazer 4:25 até os 15 nunca mais vai sair 4:15 de média. Fiquei matutando isso, se deveria botar um foco em sub3 mesmo sem treino específico nenhum. Bom, quem não arrisca não petisca. Como eu iria saber se dava sem tentar ? Eu achava que não dava, mas que poderia ser 3h bem baixinho. Não é toda hora que se faz uma maratona, então resolvi tentar: saí em 4:15 e tentei manter isso o mais constante possível. O progressivo foi deixado de lado para fazer algo constante, mas que saiu regressivo no ritmo e progressivo no esforço e desespero para chegar.

Ainda assim não foi constante, pois tinha vento e algum sobe e desce muito leve. Encontrei um cara de Blumenau e fomos revezando a marcação do ritmo e quebra do vento. Alguma perseguição para pegar um outro grupo à frente e logo estava correndo entre dois grupos grandes, um à frente e outro bem longe lá atrás. Isso até o 32, porque na terra de ninguém depois dos túneis a densidade populacional de corredores diminuía drasticamente.

Bom, antes de chegar no 32 tem que passar pelo 22, que fica lá na UFSC depois de tooooda a beira-mar. E aí a coisa começou a ficar estranha. Meu pé direito começou a esquentar. Rapidamente estava queimando, uma bolha estava vindo. Lá pelos 25 km o ritmo ainda estava bom e até acelerando um pouco com o vento a favor, mas o pé estava realmente doendo. O esquerdo também, mas era no direito que eu conseguia sentir o líquido se mexendo e espetando tudo na sola do pé a cada passo.

Encontrei o Marco Scarduelli de bike perto da ponte, reportei o estado do pé e perguntei se ele não tinha um pra me emprestar. Ali eu estava seriamente pensando em parar na tentar furar a bolha, mas essa ideia sem noção durou pouco tempo.

Passando na área de chegada no km 32 o ritmo estava perfeito em 4:15 mas o esforço já tinha causado estragos: a FC estava bem alta e o estômago estava muito estranho. Eu sentia a água chacoalhando lá dentro mas tinha que tomar outro gel. Com mais água, claro, o que aumentou o chacoalhamento. Entramos pela terceira vez no túnel e aí no campo desolado da enormidade do mundo paralelo que existe no além túnel (palavras do Palhares). Deserto, corredores espalhados esparsamente e nenhum publico ou movimento, só a ida sem fim. Xinguei um pouco aquele retorno que não chegava nunca, o Jacó estava ao meu lado de bike filmando e rindo de alguma coisa. O ritmo foi despencando, mas ainda apresentava alguma decência. Finalmente o retorno apareceu e foi só fazer a volta e começar a ir contra o ventinho mínimo que o ritmo implodiu de vez. Foi piorando, piorando... fiquei imaginando algo parecido quando alguém que tinha um monte de ações da OGX viu o valor derreter ao longo de pouco tempo.

Após o retorno eu comecei a virar um cone. Quem não estava quebrado me passava na maior velocidade, eu até tentei acompanhar um mas o Jacó me aconselhou a ficar quieto pra não quebrar de vez.

Uma leve vontade de vomitar e finalmente o túnel final. O Décio estava pedalando no lado e me deu uma baita força naquele final sofrido. Fazia tempo que não tinha tanta vontade de andar numa prova. Não teve jeito de voltar algum ritmo nem com a descidinha para a chegada, foi terminar do jeito que deu, completamente embrulhado. Parei feito um toco na chegada, mas logo consegui me recompor depois de me jogar no chão e vomitar um pouco. Fiquei novo !

Coisa realmente horrível é esse pé
Não tão novo. Os pés estavam pegando fogo. Fui pra massagem e tirei a meia, e tinha uma coisa feia lá embaixo que assustou a fisioterapeuta. Depois fui pra tenda da Ironmind comer alguma coisa, e aí então fui pro carro. Que estava lá no raio que o parta, depois do fórum. Uns 500 m de distância, mas naquelas condições muito mais longe do que o recomendado.

Buenas, o resumo foi que o ritmo despencou de 4:16 pra 4:26 em 10 km, os pés pegaram fogo e eu tentei o melhor que pude. Não quebrava desse jeito há tempos, certamente faltou glicogênio e reposição (só entraram 3 GU). Saiu 3h11min25seg de tempo oficial, um recorde pessoal. Menos de 5 min mais rápido do que Curitiba, que com aquela altimetria continua sendo minha melhor maratona em 2010 com 3h16min15seg.

Entonces é isso, o legal é que saiu um 23º geral numa maratona oficial, o que é muito bom ! Categoria não deu nada, 6º, pois os três primeiros eram possuídos e chegaram abaixo de 2h50.

Agora é um breve descanso e volta aos treinos com foco em triathlon de novo, aí vem o Duathlon de Blumenau, Olímpico de Jaraguá, Challenge e Short de Garopaba. Bora lá.

Ali pelos 30 km
Essa meia... corri com ela a primeira vez uma prova longa de asfalto.
Senti CALOR na perna. E ela destruiu a minha sola do pé, mesmo já tendo sido usada no Desafrio.

Os restos terminando a prova... Foto do Daniel Carvalho
Quando reconheci o Daniel fiz de conta que estava tudo bem !!


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Correndo em Paris

Incrível como correr em cidades diferentes dá uma nova perspectiva às coisas. Consegui arrancar um tempinho e em algumas cidades da viagem de férias e vou dizer, é algo sempre imperdível.

Obviamente Paris era a principal curiosidade. Eu fiquei procurando locais para correr e não achei muita coisa óbvia fora de parques, mas queria andar pela cidade, me enfiar em ruas, passar por lugares que não passamos nos passeios. E aí num dos dias 'à noite' saí às 20:30 num sol espetacular para um roteiro que inventei com o mapinha do metrô nas mãos.

Não é uma cidade muito fácil para correr. Muitos cruzamentos, escadas, e gente, muita gente. Mas deu pra salvar bons trechos nas margens do Sena, no Jardim de Toulerie e por incrível que pareça na calçada da Champs Élyssés. Nada pra desenvolver muita velocidade, claro. Até porque não dava. Foto pra todo lado e muitas paradas contemplativas. Cidade desgraçada de bonita, e com sol até às 10 da noite, o povo tá todo na rua a essa hora correndo.

O circuito foi simples, uma volta longa que fechou em uns 16 km. Saí do hotel perto da Torre e segui pra Notredame. De lá atravessei as ilhas e passei por dentro dos prédios do Louvre, aí saí no Jardim de Toulerie e peguei a Champs até o Arco. De lá achei que seguiria reto até a torre para voltar.

Aí deu problema. Paris não tem 'quadras'. Nem esquinas, é tudo torto e arredondado, de forma que saí do Arco e me perdi geral até chegar no rio, a um km de onde gostaria. Atravessei e como peguei uma paralela que na verdade não era paralela por onde tinha começado, me perdi de novo pra chegar no hotel. Era pra ter dado uns 12 km hahah.

Depois de Paris consegui fazer o longo na Normandia, em Moidrey, colado no Mont Saint Michel. Outro espetáculo, mas este sem fotos e complicação: uma estrada de terra passava atrás do hotel e tinha 10 km, foi só ir e vir e ir e vir mais um pedaço e saiu um baita treino, o que salvou a maratona.

Aí em Vouvray, no úlitmo dia, saí pra um trote de 10 km à noite que acabou saindo forte pela chuva e queda acelerada do astro rei. O resumo é o seguinte: corra em lugares inéditos. Vá se perder em algum canto, descobrir ruelas e vistas diferentes em viagens. Garanto que é sensacional.


Saindo do hotel lá estava ela escondida num beco ainda não visto
O onipresente Sena num fim de tarde espetacular
Dorsay

Uma careca e a Notredame
Por do sol, ilha da cidade com a notredame
Louvre
Ah, sim. O Tour
A corrida mais elegante do mundo hauhauahu
Essa rotatória do Arco do Triunfo tem umas 12 saídas
De volta, depois de errar o caminho. A torre já acesa valeu.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Inércia


Inércia é um negócio interessante hein ? A tendência a permanecer no estado em que se está pode ser observada em várias situações. Por exemplo, eu tenho inércia do sono: quando estou acordado demoro a dormir pois sempre vou fazer alguma outra coisa, já que ainda estou acordado, mas quando estou dormindo é difícil acordar pois estava dormindo antes. O mesmo acontece com os treinos: quando não se está treinando é difícil começar, mas uma vez que se entra em fluxo de treino (o difícil é conseguir parar).

É a mesma coisa como cada sessão de treino: o difícil é começar. É muito fácil arrumar uma desculpa (razão é diferente !): trabalhei até tarde, estou cansado. Está frio. Está ventando. Está de noite ou ainda não amanheceu. A cama está boa. Estou com fome. O importante aqui é começar. E começar começa antes de começar o treino propriamente dito. No meu caso, é visualizando o treino (ok, apenas com os treinos mais importantes eu faço isso). Pode acontecer dias antes ou muitas horas antes, e o treino já está começado mesmo antes de começar. Simplesmente vai ser feito. Essa é a primeira decisão.

E aí tem-se que começar realmente. Perdi a conta de quantas vezes saí pra treinar achando que não ia dar, que os intervalados não sairiam do jeito esperado, ou o ritmo pretendido seria muito difícil de atingir. Na última terça-feira mesmo. Deixei pra nadar e pedalar a noite, depois do trabalho (a inércia do sono em ação). Foi um dia daqueles, teria que nadar enquanto o filhote estava na aula de futebol logo depois de sair do trabalho, e aí teria ainda queria pedalar. E haviam intervalos nada amigáveis. Claro que não era nada extremo, na verdade uns poucos de ritmo mais moderado, mas com o ritmo de natação que estou ultimamente já fui inventando desculpas do tipo "eu alongo o intervalo", "reduzo o ritmo", etc.

Caí na água e depois de uns 1000m de educativos e aquecimento e haviam 6 tiros de 50 m pra 1 min. Coisa fácil. Mas estava pesado e achando difícil. Os tiros saíram e aí haviam 6 de 150 pra 3 min, coisa também outrora fácil. Comecei já pensando e fazer uns intervalos maiores mas no segundo bloco o ritmo encaixou. Mas só encaixou porque eu comecei. Se não tivesse começado não saberia, e os tiros foram progressivos, melhorando a medida que ia ficando mais cansado. Como pode ? Pode, porque o que manda é a cabeça. Se você decidir o corpo vai atrás, acompanha. Mas tem que decidir com vontade. E isso não quer dizer que vá sair um tempo melhor que o outro sempre. Mas que vai sair o melhor para aquele dia, aquelas condições. Claro, até um limite, pois cabeça pode sofrer de demência, já as pernas acho que não.

Lembro de um intervalado especialmente assustador às vésperas da Indomit. Eram 4 x 5 km com ritmos progressivos. Eu olhei pra aquilo e logo pensei em fazer 20 km um pouco mais forte e me dar por satisfeito. A coisa estava feia, o volume atingia picos históricos nunca antes vistos na história desse país. Mas no dia anterior olhei bem para os ritmos e decidi que iria começar pra valer. Nessa hora tem-se que saber que se der deu, ótimo. Se não der não deu, bom também. Sabe aquela de que treino bom é treino feito ? Então. Mas tem que começar mirando no ótimo. Tiro na lua. Se não acertar, pelo menos fica boiando perdido entre as estrelas. E o treino saiu. E saiu tão perfeito, tão próximo dos tempos estipulados que eu mandei um email com o link pro Roberto ver. Claro, com isso não quero dizer que é pra sair se matando em todos os treinos, muito pelo contrário. Como sempre e em tudo, a virtude está no equilíbrio (foi o mestre Yoda quem disse isso ?).

Antes eu imaginava que ir para as montanhas era uma analogia perfeita para a nossa vida. Mas descobri que treinar para qualquer esporte de endurance também é uma analogia muito parecida (o que seria exatamente uma analogia muito parecida eu ainda tenho que pensar). Nos três casos (montanha, endurance e a nossa vida de cada dia), o importante é começar. Se vai dar certo depende, mas a única forma de dar certo é começando. Saindo da inércia. Isso vale tanto para uma sessão específica quando para o treinamento em si. Começar e criar a inércia do movimento, entrar em fluxo. Transformar o treino numa rotina tão natural que não pareça mais rotina (aquela que a gente esquece).

Assim com na vida, se esperarmos as condições ideais pra começar alguma coisa podemos não começar nada nunca. Então o negócio é não ficar pensando demais. Tem que fazer ? Vá e faça. Do melhor jeito possível. Se as condições não forem boas, será um treino em condições duras que vai treinar algo além do fisiológico. Se forem condições espetaculares sairá um treino daqueles de dar confiança. Sabe aquela de começar a academia ou dieta na segunda feira ? Desculpa. Tem que começar agora. Já.

Arrumar justificativas pra qualquer coisa sempre é mais fácil do que fazer. Mas fazer realmente dá a satisfação que é necessária para viver de fato, e não apenas existir. E em todos os casos, a não certeza de conseguir fazer alguma coisa é algo que sempre, mas sempre me inspira a tentar fazer a tal da coisa. Seja uma prova diferente, mais rápida, mais longa, mais vertical, mais explosiva. É preciso arrumar um motor pra ir pra frente sempre.

E aí, como você faz pra sair da inércia ?

terça-feira, 12 de agosto de 2014

1ª Etapa do Catarinense de Duathlon - São José

Estouro da manada
Aconteceu ontem a primeira etapa de Duathlon da Fetrisc. Eu já disse aqui e repito, é a prova mais ardida que existe. Arde da garganta até as pernas. E aí lá fui eu de novo. É incrível como uma prova onde fazermos a primeira corrida quase no limite ainda pode ter uma bike forte e outra corrida forte depois. Não sei se 5 km solo sairiam muito melhor do que saíram ontem.

A prova foi na beira-mar de São José, a dois km de casa. Fui pra lá pegar o kit e fazer o checkin da bike às 7:00 e preparei tudo rapidamente. Só a bike com capacete e sapatilha, duathlon é prático ;-). E também deixei uma GoPro a bordo e filmando, então teremos um filminho.

A largada foi instantânea depois dos avisos de percurso e regras, quase não tive tempo de apertar o start. E aí foi pancadaria pura, fiz questão de não olhar muito o relógio mas quando vi 3:10 de pace assustei. Mas não reduzi propositalmente, deixei a coisa ir acontecendo regressivamente como tem que ser nessas provas. O bolo dos líderes ficou lá na frente e eu fiquei isolado e fui catando alguns atletas. O percurso era metade na pista e aí entrava para a ciclovia (esse track contém a T1, só dei o lap já em cima da bike). Entrei na transição bem perto do Fabrício e certo de que pegaria um pelote bom dessa vez (prova COM vácou). Fiz a transição rápida e saí desesperado. Mas não consegui ficar nem perto do cara, e aí um grupinho já se formou lá.

O bom é que dessa vez ninguém me passou e ao final da primeira volta alcancei um cara que viria a ser o Luiz de Jaraguá do Sul. Seguimos revezando sozinhos, ninguém chegava e o grupo grande à frente só se afastava. Uns sustos com pedestres e um carro aloprado no meio dos cones e o pedal seria tranquilamente esgoelado se não fosse a asneira fantástica que consegui fazer.

Preparando uma transição rápida, descalcei as sapatilhas bem antes. Quando o Luiz foi descalçar eu saí do vácuo pra não ter que frear e como ele ficou um pouco eu segui. Firme e forte, alucinado e perdido. A contagem das voltas estava certa, só não lembrei de pensar onde era a entrada para a transição. Vi quando passei na frente da transição porque alguém gritou, depois vi que era o pai do Yago que vinha na roda e passou reto também. Fiz a volta e vi que a saída do estacionamento estava mais perto do que a entrada, então fechei os 360 graus e entrei ao contrário na T2, me enchendo de elogios.

Larguei a bike e saí possuído, logo vi o Luiz a uns 150 m e alguém vindo colado. Comecei sentindo as panturrilhas queimarem e fui arrefecendo o ritmo naturalmente depois e alcançar o Luiz e outro atleta, aí segui como pude pra fechar a prova. A constância dessa corrida só pode ser comparada ao meu amigo Milton Bender. Não acredito que o pace foi exatamente o mesmo a cada lap hahaha.

Cheguei sem sprintar, o Yago me passou a metros da chegada mas não reagi com medo de explodir alguma coisa. Corridinha no limite. Como era dia dos pais, a Fetrisc fez tudo rápido e umas 10:30 já estava rolando a premiação. Fui pro topo do pódio da cat 40-44, muito bom ! Gostei muito mesmo, de tudo. Corridas boas, transições rápidas e bike inteligente (exceto a parte estúpida, claro). Mas é pra fazer de vez em quando... arde muito :-). Mas acho que vou fazer outro em setembro hehe.

Não achei nenhuma foto ainda, nem do pódio. Mas segue um videozinho pra ver como é a brincadeira. Agora é polimento de verdade. Uma semana light e então a Maratona de Santa Catarina domingo dia 17. Vou com tudo. Torçam por mim :-D.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Mountain Do Costão do Santinho 2014

Depois das duas primeiras edições do MD Costão do Santinho eu não tinha mais corrido essa prova. Naquela época era um revezamento e nas duas vezes corri em dupla, uma com o Hélio e outra com a Taty. Agora só tem individual nas distâncias de 8, 22 e 42 km e a prova se encaixou perfeitamente no calendário eclético que ando tendo, caiu direitinho 4 dias depois de voltar de viagem de férias :-), na distância de 22 km.

Assim como o MD da Lagoa, essa prova na verdade é um evento de três dias. De altíssimo nível, diga-se de passagem. Começa com o congresso técnico gastronômico na sexta, prova e pós prova no sábado e almoço de premiação domingo. Dessa vez ainda aconteceu uma expo bem legal, com stands da Salomon, Garmin e vários outros.

Fui pro congresso na sexta e a surpresa pros presentes foi a exibição de parte do vídeo Déjame Vivir do Killian Jornet. Tivemos o prazer de assistir a parte da escalada do Mattherhorn com aquelas cenas de tirar o fôlego. Quando mostrei o vídeo em junho para o Kiko ele disse que iria usar no congresso e assim fez. A galera quase caiu da cadeira com aquelas imagens no telão.

E aí fui pra casa dos meus pais nos ingleses pra acelerar as coisas para o sábado. Acordei em cima da hora, mas a 10 minutos da largada. Saí tranquilo e com um a sede estranha logo cedo. Encontrei o Anastácio e o Hélio ainda no estacionamento e fui pra concentração, mas antes deixei a chave no guarda volumes e visitei o banheiro. Não imagino uma largada de prova sem banheiro.

Alinhamos um pouco atrás dos primeiros corredores e largamos. Fui forte, o início é em descida suave e depois íngreme até a praia e nas areias firmes o ritmo estava bem rápido. Muito bom e fácil de correr, mas além do suportável para 22 km. De qualquer forma segui daquele jeito para não pegar engarrafamento na primeira trilha, no início do km 4. Uma pirambeira boa pra subir e uma descida melhor ainda até a praia, muito boa de correr, veloz ainda que técnica.

Um detalhe: depois da viagem fiquei um pouco torto, uma contratura perto da lombar e na panturrilha esquerdas. Fui na sexta-feira na Clínica Nura falar com o Edu pra dar um jeito e saí de lá zerado. Fui com essa incógnita pra prova e só me lembrei disso depois de terminar, a única dor foi no dedão esquerdo num chute direto numa pedra que dei no final da trilha das aranhas.

Dunas

Continuando então, voltávamos em direção à largada com a galera dos 8 km já correndo no sentido contrário e passávamos por dentro do pórtico para então entrar nas magníficas dunas do moçambique. Ô lugar desgraçado de bonito ! E por incrível que pareça, eu curti correr nas dunas, mesmo sem lembrar da última vez. A chuvarada da noite anterior serviu não só pra encher as trilhas de lama mas também para deixar as dunas um pouco mais firmes. Descer aquilo é uma beleza, passos de gigante de 2 metros, voando morro abaixo. Alguém tinha que ter filmado.

O calor apertou já na metade e quando cheguei na praia na ponta das aranhas estava seco de sede. Peguei duas águas no posto e comi um gel, também estava um pouco fraco. Comecei a lembrar que não tomei água direito no dia anterior e não jantei além das guloseimas do simpósio. Ou seja, teria que repor durante a prova só pra não quebrar, mas já estava desidratado e com glicogênio em baixa.

Entramos na floresta do rio vermelho, outro lugar sensacional pra correr. Usei das minhas técnicas ninja de corrida de aventura e corri nas partes de dunas em cima de pegadas já pisadas e na floresta por sobre as folhas caídas de pinheiros. Isso poupa um bocado de esforço e faz o ritmo não cair tanto nesses trechos lentos.

Falando em não cair tanto, a minha FC não baixava nem a pau. Estava muito alta, apesar de ter ficado na média para uma meia-maratona. Acho que pode ter sido o calor, que estava grande (bateu 30º no termômetro de rua quando voltava pra casa).

Depois da floresta fizemos um pedaço de estrada de terra até a rodovia no rio vermelho, corremos uns metros de asfalto e entramos em outra rua para voltar à floresta. Ali me disseram que estava em 7º geral. Eu havia contado uns 20 lá na primeira trilha nos ingleses, assim meio no olhômetro, e como ali haviam atletas dos 42 e 22 km, não fazia ideia da geral. Depois da separação dos dois percursos já não via mais ninguém à frente e tinha ultrapassado uns 4 ou 5 atletas apenas. Ou seja, uns 8-10 devem ter ido pros 42 e sobramos nós no percurso de 22.

Aí resolvi apertar o ritmo e logo vi o sexto. Apertei mais ainda e o passei no final da estrada de terra antes das dunas e sumi na floresta. É sempre bom dar um golpe rápido e sumir de vista pra inibir uma reação :-). Na praia vi mais um atleta e consegui passá-lo no começo da trilha das aranhas, então deveria ser o 5º. Logo numa subida passei outro e achei que estava em 4º.

Essa trilha foi sensacional. É uma coisa espetacular. E estava bem do jeito que a gente gosta, atolada de lama preta. Já levei um escorregão logo de cara e enterrei a mão esquerda na lama, tendo que limpar a tela do garmin pra poder enxergar os números. Daí em diante fui pelo meio do atoleiro correndo sempre que dava e com cuidado nos trechos de pedras. Em pedra molhada não há tênis que segure. Encontrei o Marcelo fotografando,  ele disse que tinha dois atletas mais à frente que dava pra pegar. Ainda vi um lá longe mas depois sumiu.

Cheguei na praia do santinho acabado. Seco desde o moçambique, dessa vez parei no abastecimento e peguei duas garrafas. Não tinha ninguém à vista nem indo e nem vindo, então fui de boa, terminando bem devagar sem me matar mais do que o necessário. Fim em anticlímax depois de tanta pancadaria no começo, passei o pórtico trotando tranquilo hehehe. Fiquei na área de dispersão e comilança até achar a galera. O Diogo veio com uma bolha do tamanho do pé e o Hélio e Anastácio em seguida. Todo mundo inteiro a menos das avarias. Fotos e mais papo e então me mandei pra casa. Sempre bom reunir essa galera da AndarIlha nas provas. Valeu turma !

Exatamente ao terminar a prova, o hélio apareceu ali
No domingo descobri que tinha sido o 5º e não 4º. O primeiro chegou tão antes com 1h55 que ninguém viu. Aí o segundo com 2h03, terceiro em 2h07, quarto em 2h09 e eu em quinto com 2h10. Como a geral ia até 3º, caí pra 1º na categoria 35-44, pois o 4º era da 25-34. Almoço com a galera toda reunida novamente e uma invasão do pódio, a Fabi tem que nos aguentar hehehe.

A invasão do pódio
O trailrun está explodindo. Eu não sei porque, mas simplesmente gosto demais disso. Não há coisa melhor do que correr em trilhas, não tem asfalto que se compare. Ultimamente ando vendo vários triathlons com a corrida em trilhas leves. Já viram o Ironman Boulder ? O triathlon Alpe d’Huez ? Porque não tem isso aqui ? Preciso arrumar uma trilha perto de casa pra consumo diário... se tiverem dicas me avisem.

Bom, agora é uma semana de recuperação (mentira) para o Duathlon da Fetrisc no domingo. E aí sim um polimento de uma semana para a Maratona de SC. Desde 2008 não corro essa prova, vai ser legal.

Quando saírem fotos do FocoRadical eu posto em algum lugar. Abaixo fica o vídeo produzido pelo Mário Sales, muito legal.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Treinos de intensidade, de base e "ganho de performance" com descanso

Outro dia li um tweet do Joe Friel, dizia algo como "no polimento você não ganha performance, perde fadiga pra performance existente aparecer". Tenho percebido isso nessa fase de treinos ecléticos. Outro posto do competitor runner famoso fala muito sobre misturar intensidade em várias fases do treino (não na base, claro).  E aí entramos no assunto do post, que são três na verdade.

Há três semanas fazendo treinos de transição de duathlon nos sábados, percebi uma rápida melhora nos treinos mais 'leves' de corrida e bike. Aparentemente isso se deve à intensidade aplicada nessas transições. A instrução do chefe é simular uma prova, mas sem fazer uma prova. Ou seja, saímos devagar para terminar a primeira corrida no talo, aí pulamos desesperados na bike fazendo uns 15 minutos no sufoco, entramos em regime de endurance até os 10 km finais, que são no verdadeiro pânico. E então, a segunda corrida começa forte pra acabar mais fraca. Isso fabrica uns 20 minutos de intensidade muito alta nesses treinos.

Percebi durante esse período curto uma melhora bem legal nos ritmos nos treinos mais 'leves', o que parece ser bom, já que estamos tentando construir velocidade sobre uma base já existente.

E aí o assunto do tweet. Como os treinos estão confusos, acabam que alguns dias cabem uns off forçados (muitas vezes tem natação ou funcional). Depois desses dias leves (segunda foi um deles, domingo só nadei), parece que o ritmo sobe sozinho e facilmente.

Isso nos leva ao último assunto deste post confuso: o poder do polimento ! Tenha em mente que isso tem um valor enorme, é melhor chegar um pouco mais descansado do que com um treino 'mágico' a mais. Esse treino não vai agregar nada e só vai piorar as coisas. Pode ter até um efeito psicológico interessante, mas não fisiológico. Neste caso do polimento, menos é mais ! Vou testar isso na maratona de SC em 17 de agosto :-).


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Base aeróbia e aclimatação em altitude

Há algum tempo venho pensando nas semelhanças que existem entre as duas coisas, a construção da base aeróbia e a aclimatação em altitude. Acho que existem algumas coincidências interessantes.

Considerando que o objetivo da base aeróbia é permitir uma evolução de performance (leia-se, ir mais rápido e mais longe) e a da aclimatação também (ir mais rápido e mais alto), dá pra perceber o que há em comum.

Nos dois processos temos uma fase com objetivos parecidos. Na fase de base aeróbia normalmente treinamos por muito tempo em baixa intensidade, e na aclimatação passamos muito tempo em altitudes 'baixas'. O 'baixo', claro, é relativo e individual. Em termos de frequência cardíaca uns 138-142 bpm pra quem tem um limiar de 164. Em termos de altitude, muitas vezes pouco acima da metade da altitude do cume da montanha é onde se passa mais tempo aclimantando, com rápidas incursões a altitudes maiores. Ou seja, são baixos relativos ao máximo em questão.

Nessa fase o que fazemos é tentar modificar a nossa fisiologia para nos tornarmos mais eficientes. No consumo de oxigênio, na queima de gordura como fonte principal de energia, no aumento das mitocôndrias e dos glóbulos vermelhos. Mais eficientes para o que vem depois, que é correr no limite e ir o mais alto que podemos. Nos dois casos, ficamos mais saudáveis e fortes na base para poder aguentar o que vem depois e justamente, dar base ao que vem depois.

Pois acontece que a base aeróbia não vem sozinha. Quando a construímos também damos o tempo necessário para os outros sistemas se prepararem adequadamente ao esforço que virá. Por exemplo, o cardiovascular responde mais rápido que o muscular, que é mais rápido que a evolução dos ligamentos, tendões e cartilagens, que por sua vez evoluem mais rápido que os ossos no sentido de suportar a carga de treinos e provas. Idem para a aclimatação. Uma etapa acelerada ou mal feita certamente trará problemas mais acima, pois não haverá tempo dos demais sistemas terem se adaptado adequadamente à altidude.

Tanto no caso da base como no da aclimatação acontecem os platôs de desempenho, quando se não introduzirmos uma sobrecarga (treinos de alta intensidade e subidas a altitudes maiores, respectivamente), não há evolução, e portanto, não ficamos mais perto do objetivo. Ou seja, depois da base é preciso ter estímulos de alta intensidade e altitude, senão ficaremos presos 'lá embaixo'. Se o objetivo for apenas condicionamento ou ver a montanha mais de perto, excelente. Se for ir mais rápido e mais alto, é preciso introduzir intensidade.

O interessante disso tudo é que uma fase tida como 'chata' por alguns pode ser usada de uma forma totalmente diferente e divertida. Na base aeróbia é possível introduzir alguns treinos alternativos, mais descompromissados e onde podemos exercitar outras habilidades. Por exemplo, trilhas pra quem só corre em asfalto, MTB pra quem só pedala na estrada e vice versa, remo no lugar da natação. E na aclimatação podemos incluir escaladas menores, roteiros de trekking maiores, etc.

Portanto, o segredo para se construir uma boa base é achar uma razão para fazer a parte que poderia ser chata ficar divertida. O objetivo não fica sendo a coisa única, aproveita-se a jornada e não só a linha de chegada ou cume.

Um bom exemplo aconteceu esse ano. De uma forma ou de outra acabei fazendo treinos menos intensos nesse semestre, mas com um volume em zona aeróbia muito grande. Na preparação para o El Cruce e Indomit fiz longos de corrida bem longos, alguns em trilhas muito técnicas ou com grande desnível.

Além do prazer de transformar cada treino longo em uma aventura (afinal, levava celular, kit de primeiros socorros, lanterna e mochila), correr em trilhas naturalmente baixa a FC média e treina muita força. Isso acaba gerando uma reação em cadeia de melhor condicionamento cardiovascular e muscular que serve adivinha de que ? De base para o que vem em seguida. Estou certo de que é possível encaixar um período de alta intensidade curto e polimento e aproveitar isso numa maratona 'rápida' (novamente, relativo à distância). Assim espero na Maratona de SC no dia 17 de agosto :-). Claro, as trilhas ainda trazem junto os visuais incríveis, os amigos, as risadas e as roubadas, o que pode ser considerado um fim em si.

Em números, a FC média esse ano ficou em 130 contra 138 no ano passado. O volume em tempo acabou parecido, mas em ganho de altitude esse ano foi mais que o dobro. Uma variação dessas parece ser suficiente para deixar o basal mais baixo e a recuperação muito mais fácil. Praticamente me livrei de vez do incômodo no tendão de aquiles esquerdo de dezembro de 2013 pra cá, logo quando o volume de corrida deu uma disparada. Além disso parece que a eficiência também cresce muito. Tenho experimentado treinos de 16, 18 km no plano sem nada, água ou gel. Nenhum sinal de quebra também nas provas onde parece que a quantidade de carbo que tem que ser ingerida está menor.

Então, parece que fazer base dá certo. Ache uma coisa que seja divertida e obedeça a planilha quando ela mandar ir devagar.

Claro que ainda pode-se complicar tudo e procurar entender como o condicionamento aeróbio se sai na altitude, ou como a altitude afeta o desempenho esportivo. E o mais interessante de tudo isso, como treinar em altitude pode gerar um ganho expressivo de performance quando de volta a baixas altitudes, ou ainda, gerar mutantes que conseguem subir e descer o Mckinley em 11 horas ou o Mattherhorn em menos de 3. Mas acho isso vai precisar de um pouco mais de leitura, conversas com o André Cruz e algumas experimentação pra gerar outro post.


Trilhas, muitas trilhas !
Um lugar onde pace não existe...

domingo, 22 de junho de 2014

Desafrio 2014 - Com sprint de chegada e dedão destruído

Dessa vez o Desafrio doeu. Mas foi em lugares inesperados, no posterior da coxa e no dedão direito. Depois da Indomit 100K não fiz nenhum treino longo de corrida, só umas 4 ou 5 corridinhas de 10 km. Fiquei com uma dor na lateral interna da coxa direita e tratei com o Edu da Clínica Nura. Ficou zerado e fui tranquilo pra prova, mas curioso em como seria depois de 3 semanas sem treino algum em seguida de uma ultra de 100 km e do Márcio May Marathon MTB na semana anterior (breve post).

Pois bem, a sexta-feira foi estranhamente quente e uma chuva com trovoada despencou à meia noite em Urubici. Fiquei semi acordado até às 3 quando o barulho parou e ao levantar 6:30 não havia mais água caindo, só caída. E muita lama.

Alinhei junto com o Anastácio e Hélio, encontrei meio mundo lá e começamos a corrida. Fui devagar. Aqueci até o km 3 mais ou menos e comecei a correr mais solto, sem olhar pra nada, nem pace nem outros atletas. Só que larguei muito no fundo (não faça isso) e fiquei preocupado em pegar engarrafamento na subida da trilha no km 11. Passei a Débora e aí segui um pouco mais rápido pra chegar logo na trilha.

Muita lama e diversão naquela subida, os pés já estavam molhados há tempos nos primeiros rios que cruzamos, então fui reto com o pé enterrando até o tornozelo e subi firme passando muita gente. Conseguia correr nas subidas leves mas evitava para não forçar a coxa, mas não adiantou, apareceu uma dor no posterior igual à da parte de dentro, acho que migrou de lugar. Aí segui até o véu da noiva, que estava espetacularmente cheia.

Pegue a viseira e óculos de sol com o Dariva e a Patrícia segui só com um pouco de coca-cola no posto de alimentação. A esperança era grande, mas logo depois de botar os tapa-sol tive que tirar por embaçamento total e completo da visão.

Subi sem olhar o relógio uma única vez e por uns trechos junto com alguns atletas, só pela sensação de esforço. Ao chegar no topo fiquei assustado com o tempo, bem mais lento que o ano passado, cerca de 10 minutos. O esforço não foi grande, mas a dilatação do tempo foi. Imaginei que seria pela trilha, mas logo a Débora veio e vi que não tinha aberto muito dela, o que normalmente acontece na subida, com ela me buscando na descida.

Bom, era só descer. Esse 'só' é sacanagem. Todo santo ajuda não sei quem, porque a mim é que não é. Comecei todo torto e uma mulher da dupla me passou voando, logo mais um monte de caras sumiram morro abaixo. Os tênis estavam folgados, os deixei assim de propósito para subir. Mas fui apertar e só consegui apertar o esquerdo. O cadarço (aquele fio com trava da salomon) do direito travou e não ia nem pra frente nem pra trás, soterrado por um monte de lama seca. Não tinha rio perto, então desisti logo e segui com o pé frouxo, grave erro.

Mais ou menos por aí o dedão direito ficou pelo caminho
Cheguei no véu da noiva correndo assustadoramente bem. Havia ficado preocupado em descer com um tênis flat e com pouco amortecimento como o salomon sense mantra, mas foi perfeito exceto pelo dedão, que já latejava bastante. Acho que foi a melhor descida até ali na história.

Encontrei a Patrícia de novo e troquei a blusa amarela pela azul. Coisa horrível, estava derretendo já dentro daquilo. Entrei na trilha pra descida e corri bem até achar mais lama. Aí foi uma coisa bizarra, um passo pra cada lado, nenhum reto. O pé aterrissava e escorregava pra um lado ou outro, muito legal correr assim, mas cansa e é lento.

Essas estradinhas foram cenário de MUITOS treinos para a Indomit e El Cruce esse ano...

A Grande Descida sempre me mata e dessa vez entrei na miserável alucinado e correndo forte. Fiquei impressionado em como estava descendo forte até a perna esquerda ficar toda frouxa numa passada eu quase ir pro chão. Cheio de pedras bicudas e grandes, não seria boa ideia, então aceitei que as pernas já estavam com retardo neuro muscular e reduzi o ritmo antes de me arrebentar. Dado meu histórico recente de quedas na corrida foi o melhor a fazer.


Depois da grande descida inda estava vivo
Lá no final perto do rio achei o Rafael Vargas, tinha caído e machucado o joelho, mas a panturrilha é que estava estranha, pulsando visivelmente numa parte. Segui e ele veio logo atrás. Também achei o Fábio e viemos juntos um pedaço.

Incrível ! Nenhuma queda no percurso todo !
E consigo me arrebentar na beira-mar...
Aí comecei a correr fácil no km 45, segui sem parar nem pra comer até a chegada. E aí, a uns 200 m, já na curva da igreja para o pórtico, surge do nada um cara sprintando do meu lado. E o povo gritando, vai, vai, não deixa passar, vai, vai kkk. Só lembro de ter visto um número preto (o das duplas era vermelho) e instintivamente reagi, correndo feito louco, bufando e soltando grunhidos horríveis. Não sei como consegui fazer aquilo... E depois fiquei muito puto. Poderia ter caído de cara no chão correndo daquele jeito em calçamento de pedra molhada. Ou estirado um músculo, sei lá. Mas... vai que o cara era da categoria hahahaha.
Sprint depois de 52 km... deu 4:10 nos últimos 200 m mas a sensação era de 2:40 :-)
Depois de recuperar o fôlego e cumprimentar o doido fui direto pra massagem e alimentação. Logo achei o Hélio, esperamos o Dariva e o Anastácio chegarem e tocamos pra casa pra fazer a melhor parte da corrida, o churrasco do William com cerveja artesanal do Anastácio. O Desafrio na verdade é uma desculpa cansativa pra essa reunião anual de amigos, que dessa vez também contou com a Fabi e o Kiko.






A noite troquei mensagens com o Marcos e fui lá pra premiação, tinha ficado em 5º na categoria 40-44. Ficamos olhando as outras categorias e na minha não fui chamado. Ainda fiz o mico de ir lá na frente perguntar, e o locutor disse que só ia até 4º devido à quantidade de atletas não ter passado de 30 (largaram 28). Regra que eu não conhecia (estava lá bem escrita). Bom, sem troféu pro Rafael :-).

Depois fui ver os tempos com detalhes e descobri que o 4º estava 20 seg à frente, e os tempos eram os brutos e não os líquidos (pra que chip ?)... A minha diferença do bruto pro líquido deu 38 seg... ou seja, largue na frente :-).

Corrida de montanha realmente está explodindo. Muita, mas muita gente e o nível cada vez mais alto. Essa prova começou com 30 pessoas e hoje tem 300 na solo e mais 200 duplas, impressionante como o nível de 'impossível' vai subindo, como as pessoas vão testando ir cada vez mais e mais, longe e difícil. Muito, muito legal participar disso tudo. Principalmente desde o início, já se vão 9 anos de Desafrio, e enquanto a prova existir e eu puder, vou correr.

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Detalhes técnicos:

Aqui o link da prova. Total de 5h19min, 12 minutos mais lento que no ano passado, mas 1 posição melhor. Tempo é relativo. No caso, relativizado pela lama. A Grande Descida é a despencada quase vertical no km 42,5.

Consumi uma garrava de 100 gr de carbup, 5 GU e 4 mariolas, mais coca-cola em três postos de apoio e meia banana no topo. Não faltou nada nem sobrou, acertado.

Corri com a mochila de hidratação com 1,5 l dentro e sobrou. Gostei, fica mais prático pra pegar as coisas nos bolsos da frente e não tem que ficar parando pra encher as garrafinhas, nem fica nada chacoalhando na cintura. A contrapartida é começar e principalmente subir 1kg mais pesado do que com o cinto.

Não tinha tempo líquido mas tinha chip. O resultado foi 5º na categoria 40-44 e 30º geral, com o primeiro animal correndo pra 4h07 e uma dupla pra 3h33 HAHAHA.

O saldo do dedão foi bizarro. Unha totalmente preta e o dito cujo latejando e doendo pra caminhar até segunda-feira. Quarta estava melhor e sexta corri 10 km leve. Salvo, pelo menos.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

Indomit Costa Esmeralda Ultra Trail 100km

Depois da chegada...
A frase é verdadeira !
Primeira ultra trail com 100 km do Brasil, e minha primeira ultramaratona com três dígitos. Só isso bastaria, mas haviam outras cinco provas paralelas nas distâncias de 84, 65, 50, 21 e 12 km. Diversão garantida para vários públicos. E uma logística complexa de dar gosto: um só circuito, simplesmente indo sem parar até voltar ao ponto de largada, fantástico.

Participar dessa corrida foi algo surreal. Sempre tive vontade de correr uma coisa de três dígitos, e depois de muito ver provas desse tamanho e maiores lá fora, eis que aparece uma aqui do lado de casa. Praticamente um ímã me atraindo num ano que já começou com El Cruce e que também não teria ironman. Me inscrevi em dezembro, comecei a treinar específico em março e pulei rumo ao desconhecido. Ao infinito e além como diz o buzz lightyear.

Depois de 9 desafrios, a distância máxima que já tinha corrido era de 53 km. Em treinos, 34 para as maratonas, irons e Cruce. Esses treinos foram divertidos, voltei a correr em trilhas depois de um tempo só no asfalto e vou dizer, que saudade. Isso não pode ficar de lado, vou dar um jeito de manter corridas offroad mesmo em treinos pro ironman. Fiz três treinos especiais, um de 31 na volta sul, outro de 40 com o sertão duplo e várias trilhas e aí um de 46 em Urubici onde parece que a coisa engrenou de vez. Aquele último deu confiança.

Pois bem, vamos à prova !

Segui para Porto Belo na sexta-feira às 19:00, chegamos lá o Alexandre Tremel, Daniel Carvalho e eu às 21:00. Arrumei as coisas, andamos pela arena de largada ainda vazia e fomos tentar descansar. O tempo não passava e depois de fazer tudo várias vezes fui comer um misto quente com coca-cola às 23:10 e então logo estávamos na muvuca da largada. Encontrar aquela turma maluca nessas horas não tem preço. Inacreditável a energia concentrada ali debaixo daquela noite clara e de temperatura agradável.

Largamos de headlamp na testa pontualmente à zero hora do sábado 17 de maio. Um desafio monstro estava começando, e não era só corrida. Correr à noite toda era uma incógnita, e sobre o percurso eu só conhecia as praias do K42. O resto era totalmente não mapeado, não rolou nenhum treino de reconhecimento.
Todo mundo dormindo e nós lá na largada ;-)
Os primeiros 16 km foram pra aquecer, uma praia firme até itapema, aí uma breve saída para o acostamento da BR-101 e caímos na areia de novo para passar no pórtico da largada dos 84 km. Passei lá com 1h38min em ritmo bem leve e seguimos para umas trilhas azedas, bem empinadas, curtas e inclinadas pra direita. Aí pegamos uma estrada asfaltada subindo e logo outra de terra e encontrei a Débora e mais alguns atletas. Seguimos pra uma estrada de lajotas e então terra e vieram os morros com trilhas bem marcadas.

Essa sinalização foi perfeita, colocaram fitas zebradas e pedaços de fitas reflexivas nas arvores, aquilo acendia ao ser iluminado pela lanterna. Praticamente não havia staff dentro das trilhas e ainda assim era muito fácil se orientar. Só que dava um desespero olhar pra cima e ver um caminho de luzes brancas ascenderem até o infinito. Rampas longas, curvas, descidas, trilhas espetaculares e aí um pedaço plano de terra batida. Alcancei a Débora no começo das subidas e seguimos junto com mais alguns atletas, veio um descida e todos me passaram, estava difícil enxergar ou o terrenos era muito complicado, ou as pernas muito lerdas. O fato é que a descida estava mais difícil que a subida. Mais um plano e então subiu de novo, segui praticamente sozinho boa parte dessa trilha, uma viagem.

A descida foi forte e no final fui ultrapassado por uns 3 atletas e pela Vera, agora líder do feminino. Ela descia numa velocidade assustadora e desapareceu da minha vista até o km 84. Logo veio outro morro que deu trabalho e onde fiz besteira. Estava meio estragado durante o dia, achei que era ansiedade pré-prova. Aí fiquei com frio por largar só de camiseta e no topo do morro coloquei o corta-vento, desci tranquilo, passei o plano e comecei a subir dentro da mata sem vento. E fui subindo até ficar encharcado numa noite fria. Resultado: não tirei mais o corta vento e fiquei gelado e molhado até amanhecer, nada bom. A garganta pifou total sábado a noite...

Primeira parada, km 37

Depois desse morro passamos na largada do km 65 onde fiz uma parada programada, 4 min sentado comendo e recarregando o camelback. Ali estava com 4h40 de prova mais ou menos e já 37 km nas pernas (deveriam ser 35). Pouco antes disso veio a Clara em segundo feminino, encontrei o Piu e o Valmor e logo todos desapareceram na noite enquanto em me reorganizava. Saí dali e corri o outro morro praticamente sozinho.

Até então eu estava com a altimetria toda na cabeça, sabia onde deveria ter subida, até qual altitude e distância. Mas fiquei afetado pelo sono ou confundi tudo, pois achei que só haveria plano até o posto de largada dos 50 km, onde faria outra parada programada. Mas tinha um morro malvado, percorrido solitário com iron mainden no fone de ouvido e a lua de companheira. E o frio, a garganta já doía. Não era pra estar sentindo frio. Nessa subida uma dor na lombar perto do glúteo começou a ficar mais forte, e eu comecei a subir com o dedão pressionando o músculo ali. O pé direito começou a doer na bola e no dedão e a panturrilha esquerda ficou estranha. Fiquei preocupado e com o terreno cheio de grama molhada e pedras na descida fui na paciência para não me destruir de vez ou cair.

Em termos de sono o bicho pegou às 5-5:30. Fiquei realmente lerdo e aproveitei um pequeno córrego para lavar a cara e dar uma acordada. Comi gel e mariola extra, tomei um resto de gatorade e engoli dois bcaa e 100 mg de cafeína. Ajudou um pouco.

Finalmente plano e cheguei no posto de largada dos 50 km com 54 às 6:55 da manhã. Ali peguei a sacola que deixamos com a organização, troquei o material noturno pelo diurno (gorro por boné, lanterna por óculos de sol, etc), passei protetor solar, coloquei uma camiseta seca e inspecionei o pé direito. Essa parada foi programada numas conversas com o coach. Achamos melhor parar preventivo e recuperar do que arriscar quebrar. E ali eu precisava parar. Estava bem cansado, torto, sendo ultrapassado por muita gente e achando tudo muito difícil. Arrumei tudo, tomei bastante sopa e comi bisnaguinhas, batata ruffles e reabasteci. Ainda tinha tempo para os 15 min planejados e deitei no chão com os pés na cadeira. Achei um saco com gelo e pedi outro à staff para colocar nas coxas debaixo da bermuda.

Saí novo e o Manoel Lago, diretor de prova, me falou que eram mais 6,5 km planos e então viria A TRILHA. O jeito que ele falou A TRILHA me deixou definitivamente intrigado. Pouco antes tinha encontrado o Nando que fazia os 84 km, ele tinha feito um treino lá e contou maravilhas do percurso por vir. E eu achava que o pior já tinha ficado pra trás...

O Marcelo Eninger veio dos 84 voando, pedi pra me esperar pra seguirmos juntos (estava numa parada fisiológica num poste) mas logo desisti, ele estava muito rápido. Depois a Débora reapareceu, não a via desde o km 25 e ela veio forte e eu fui junto. Comecei a correr melhor e com as pernas mais soltas mas o dedão não parava de doer. Pedi um advil à Débora, o meu estava no kit enfiado na mochila. Tomei a baguinha verde e esperei o dedo ficar quieto, mas ele foi incomodando até o final (hoje está dormente e formigando, acho que esmaguei algum nervo...).

Atravessamos a BR-101 próximo ao pedágio de Porto Belo por uma passarela e seguimos reto rumo ao morro que bloqueava o horizonte. Pulamos um posto dágua e começamos uma subida bizarra. Eu não conseguia subir com os pés pra frente, tinha que botar na posição de 'dez pras duas' para não ter que ficar na ponta dos dedos e forçar a panturrilha. Que rampa ! E aí entramos numa trilha de dente de serra, passando por prainhas desertas de areia fofa e mais trilhas. Por aí o Giliard passou numa subida e logo depois o Chico Santos foi à caça descendo feito doido. Naquela hora até que eu estava descendo direito com mais de 60 km nas pernas.

Pegamos duas trilhas bem erodidas e muito técnicas por 15 km, um sobe e desce danado e então saímos na praia de Mariscal. No posto de hidratação antes da última subida vi a Taty chegando e acabei desgarrando da Débora quando vi que comecei a passar gente de pulseira laranja (100 km). Incrivelmente eu comecei a correr melhor depois dos 50 e dali em diante só fui ultrapassado por atletas das distâncias menores, que largavam depois da nossa passagem. Depois de correr mariscal inteira parei no posto da largada da meia-maratona onde fiz outra parada técnica, comi bastante melancia e banana e enchi o camelback. Encontrei a Clara meio quebrada e segui pra Canto Grande, parando para fazer um selfie para por no facebook quando puxei o celular para avisar em casa a hora prevista para resgate ;-). E aí lá no começo de canto grande a Débora chegou, agora em segundo lugar. Seguimos pela praia infinita num pace muito bom e comecei a abrir um pouco até que vi a líder do feminino. A praia acabou numa pirambeira de asfalto que levava a quatro ilhas e então a Débora veio já como líder. Muito legal ver a disputa dessa forma. Indestrutível essa mulher. Teve câimbras no começo da prova, veio recuperando lá do trás e no km 87 assumiu a ponta novamente para não perder mais !

No posto da meia eu perguntei pro Manoel que distância a prova teria, pois teve 54 na 'metade'... teria 108 ? Ele explicou que houve uma mudança na véspera e acabou aumentando um pouco a primeira metade mas que a segunda tinha 50 mesmo. Segundo ele, 5 % de erro está ótimo para uma trilha dessas. Eu concordo. Percurso espetacular. E ainda bem que errou para mais. Se fosse menos acho que eu ficaria dando voltas na chegada para fechar 100 km hehehe.

Seguimos junto de um camarada de Brasília que estava correndo os 65 km praticamente no mesmo ritmo, andando nas subidas, descendo correndo 'forte' e num pace decente nos planos. Passei mais alguns atletas dos 100 km (depois vi que foram 18 desde o km 60). Passei pela largada dos 12 km e parei novamente, mas por motivos gastronômicos: já passava da hora do almoço e lá tinha pão de queijo ! Comi 6 pãezinhos com dois copos de coca-cola e segui feliz. Aí veio a parede. Uma trilha nanica e vertical onde levei 21 min pra fazer um km. Isso mostra um pouco do estado das coisas. E depois um resto de asfalto que não acabava... mas estava correndo fácil nas descidas.

Desde o km 60 eu comemorava cada parcial redonda... 60, 70, 80, 90 e finalmente 100 km ! Ver isso virar no GPS é estranho. Parece piloto automático, eu estava em velocidade de cruzeiro no plano sem pensar, só indo, indo... achei incrível estar correndo depois de 100 km, sem dor alguma exceto o dedão. Nada de câimbras, bolhas, estômago revirado, pernas travadas. Fiquei eufórico e comecei a correr mais rápido e uma staff falou que só faltava 1,5 km, aí segui sem mais parar pra fechar essa monstruosidade. Que, aprendi, é possível de ser feita por um amador determinado. E parece que mais também é possível ;-). Não cheguei destruído, aniquilado, morrendo nem me arrastando. Estava podre de cansado e moído, mas vivo, consciente e inteiro.

Confirmei algo em que acredito, de que é possível treinar para essas provas longas sem necessariamente fazer um volume absurdo de corrida, desde que mantendeo o treino de triathlon num nível mínimo. A bike ajuda muito a manter o cardiovascular e a força, já a natação compensa a pancadaria toda. E ainda dá pra fazer umas provinhas no caminho, como o longo da Fetrisc.

Passar essa chegada foi muito legal. O Aracajú estava lá com a Cínthia e a pequena, logo vi meu pai e depois do pórtico a Daiane junto com os fotógrafos tirando foto com o celular ! Desmontei no chão depois de abraçar a ela e ao Arthur, que ficou perdido e veio correndo depois de mim, acabei voltando e entrando com ele de novo ;-). Que coisa sensacional ! 14h27min de corrida, metade à noite, 103,55 km e 3000 m de subida acumulada deixadas para trás.

Sem legenda

Vontade, só isso é capaz de nos fazer correr essas coisas. As pernas desistem de reclamar, o corpo se cansa de lutar e parece que tudo entra em fluxo. O tempo passa sem vermos, a noite voou, o sol nasceu espetacular e um dia azul mostrou toda a beleza embasbacante desse pedaço de litoral incrível que é a península de Porto Belo. Me sinto um privilegiado por tudo, por ter participado disso, ter treinado, pelos amigos na batalha, por ter chegado e ter a família e amigos por lá. Um ambiente de amizade que só as trilhas proporcionam... O Giliard correndo na subida ainda parou para dar um aperto de mão. A líder dos 100 km ao ser ultrapassada desejou boa prova e boa sorte à Débora...

Depois da chegada a muvuca divertida de sempre, todo mundo lá cheio de história pra contar. Fui pro gelo, aí almocei um prato de peixe pra duas pessoas, tomei banho numa torneira a 40 cm do chão e arrumei as tralhas para voltar pra casa.

E então fui me atualizando do andamento de tudo. Encontrei a Taty que chegou em terceira geral. Fiquei sabendo da torção do joelho do Tremel antes do km 50, uma pena, mas um risco a que estamos sujeitos nessas provas. Vai melhorar e voltar na próxima tenho certeza. E bem depois vi o que o Daniel conseguiu fazer... concluir aquilo de muleta improvisada, 30 km com o tornozelo torcido... Depois dizem que somos loucos. Loucos são os vêem a vida passar sem passar por ela ;-).

Até a próxima ;-)

Sobrou um pouco de energia :-). 
A Daiane sempre na linha de chegada com esse pequeno !
Dessa vez levamos o meu pai junto, ficou empolgado :-)

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Dados técnicos

O campeão foi o Iazaldir, com absurdas 10h11min. O Sérgio Trecaman foi o segundo colocado (no Cruce também) e então Cristiano Marcelino, Plínio Souza e Tiago Sassi. No feminino, Débora, Clara, Taty, Vera e Iva. Nos 50 Km o Giliard Venceu e o Chico Santos ficou em segundo. Marcelo 5º nos 84 km.

Fiquei em 4º na categoria e 13º geral. Em 3º ficou o Giba, 11 minutos à frente, em segundo o Piu e quem ganhou a 40-49 anos foi o Fernando Vieira do RJ com 13h10min.

Consumi 9 dos 14 gels que levei, 10 mariolas, 2 garrafinhas de carbup concentrado, 9 comprimidos de 800mg de BCAA, 3 cápsulas de sal e 100 mg de cafeína. Fora isso, um gatorade inteiro em quase todo posto, muita água, coca-cola, ruffes, mais mariola, banana, melancia, pão de queijo e sopa.

Corri com o Salomon Sense Mantra e de meias de compressão, bermuda de triathlon e camiseta. Na mochila, bolsa dágua de 2L, kit de primeiros socorros, pilhas, lanterna, corta-vento, gorro leve.

As trilhas da primeira metade eram bem amplas e com descidas cheias de pedras. As praias eram todas firmes exceto alguns poucos trechos de areia grossa e bem fofa, não mais de 3 km no total. As trilhas da segunda metade eram muito técnicas, erodidas e cheias de pedras e raízes. O percurso foi exigente, mas a organização poderia ter eliminado boa parte dos atletas se colocasse a trilha até a praia da tainha em canto grande (aquela do K42).

Se houvesse chuva ou se as areias fossem fofas, horas a mais estariam no tempo de todos os atletas.