terça-feira, 20 de outubro de 2026

Uma exceção para confirmar a regra

Aero, na foto do Duks

Eu não me aposento de nada. Escalo e mergulho a cada alguns anos, portanto ainda sou escalador/montanhista e mergulhador. E eis que depois de uma longa ausência, veio ideia de escrever sobre a última prova. Não em um post minúsculo e apertado no instagram. Não por uma AI que cospe tokens na velocidade do pensamento. Na unha, como faziam os astecas.

Portanto, o blog nunca foi encerrado, ele só hibernava. Agora acordou pra comer alguma coisa, olhar a paisagem e ver se vai voltar a dormir ou não. Mas os tempos são outros, a atenção é mais fragmentada e a quantidade de coisas pra fazer aumentou vertiginosamente desde o último post em 2021. 

O falatório será sobre o ironman 70.3 Florianópolis, que aconteceu no último domingo. Segunda prova longa do ano, que teve uma boa variação com um 1000/100/10, sprint, olímpico, duathlon e uma prova de ciclismo inédita, para mim e para o percurso. Era a prova alvo do segundo semestre, e lá atrás eu achava que o mundial do ano que vem seria em Nice - e aí queria treinar agressivamente para pegar a vaga. 

Queria, do verbo tentei, mas a profusão de variações das semanas dos últimos 2 meses foi muito divertida. Foi uma preparação bem diversa, mas sempre com a confiança inabalável de que vai dar certo. De um jeito ou de outro, na medida do possível, e sempre entregando o máximo no dia. Execução. Simples.

Eu tinha feito essa prova em 2018, no que hoje olhando pelo retrovisor parece o auge de performance, mas olhando no microscópio mostra coisas interessantes. Oito anos, e condições da natureza à parte, os números da natação e ciclismo foram quase idênticos. Naquele ano eu havia vencido a categoria, e agora mais ancião, fiquei em 7º, com uma corrida regressiva onde virei um cone nos últimos 3 km da búzios.

As semelhanças param aí, devido justamente à constância dos treinos. Mas mesmo com a corrida desmoronando, é legal ver que alguma consistência existe em quase uma década. O não retrocesso é um avança em uma categoria mais sênior.

Indo para a prova, saímos de casa as 3:50, Daiane, Arthur e eu. A Laís acompanhou remotamente 😍. Arthur foi dormindo no porta-malas com os bancos deitados, dada a exaustão da festa que acabou a 1 da manhã. Fiz as funções pré largada agilmente, e com extrema tranquilidade. Saímos para a praia, aqueci 1 minuto, na verdade para molhar a roupa e ajustar, e fui pra largada na baia dos 30 min.

A largada em rolling start é um pouco novidade ainda, mas felizmente o frio na barriga ainda está lá. Tanto que, a 5 minutos, fui procurar onde ficava o banheiro químico. E largamos... num mar magnífico, geladinho, flat, debaixo de um amanhecer espetacular e clássico de outono. Só aquilo já era um privilégio. Na verdade no plural, privilégio pela benesse climática, por ter saúde e vontade de fazer isso ininterruptamente por algumas décadas, com minha família e amigos, na minha cidade.

Nadei muito fácil até a segunda boia e apertei um pouquinho pra acabar. T2 bem lenta pra não fazer besteira, como gosto de fazer, e aí saí correndo feito gato de pantufas pelo asfalto chokito do P12. Não consigo me acostumar a correr lá naquele asfalto, alguém por favor mandar recapear ou colocar um tapete.

Ciclismo começando e o Roberto, que eu tinha alcançado na natação, passou no elevado de jurerê e sumiu... pensei em manter no visual, mas o visual precisaria de um telescópio.

Achei a frequência cardíaca alta, e fui segurando, mas aí tive uma surpresinha. Pensava que o percurso era o do ironman dividido por 2, então deveria ir direto pra Canasvieiras. Só que entrou pra ingleses, e o cidadão nativo que não conhecia o percurso viu um pelotão se aproximando... pra não me irritar, resolvei amassar a subida dos ingleses, e amassei na volta também. Não vi mais sinal de pelote, mas percebi, com certo pavor, que havia um cansaço nas pernas incompatível com o momento.

Indo para o sul, regulei um pouco o esforço, e cheguei tranquilo lá no sul, no retorno do percurso. E aí resolvi aproveitar o ventinho leve a favor e soquei um pouco demais os pedais. Mas estava uma sensação muito boa ! É hoje, o "é hoje" sempre passa pela cabeça. Aproveitei as descidas para descansar, comecei a preparar a T2 nos últimos 4 km e fiz uma transição rápida.

Saí correndo solto, leve e como tenho feito, sem olhar nada no relógio, que só mostra tempo corrido. E aí virou o km 1 com 4:20. Pensei, "é hoje !". Virou o km 2 a 4:21, e aí tiver a certeza de que a corrida seria boa. A realidade chegou junto do km 3, já com uma certa contratura nos quadríceps. Tomado pela certeza de que daquele jeito "não vai ser hoje", comecei a correr numa percepção de moderado e andei ali pelo km 7 para comer um gel. Acelerei na búzios, e pareceu que "ainda pode ser hoje", mas logo a conta veio, com juros. Do km 12 em diante eu achava que ia travar as pernas a qualquer momento, mas fui indo mesmo até os 17 quando andei de novo pra tomar 3 copos de coca cola seguidos, só porque deu vontade.
E aí tinha só uma reta pra chegar, mas virei um cone. Fui ultrapassado por um monte de gente e notei na cútis e cobertura capilar dos adversários que alguns deles deveriam ser da categoria.

Terminei extremamente feliz por ter levado a corrida no fio da navalha sem explodir. Surgiu uma dor no tornozelo inédita que esta se esvaindo só agora, mas a sensação de se esfolar ao máximo, movido apenas por mim mesmo, é impagável. Seria fácil e agradável tirar o pé só pra chegar, mas chegar fazendo o máximo que se tem para o dia é muito melhor.

Ardeu mas valeu 

Mais uma baita experiência, uma sequência de aprendizados ao longo de 4h44min. Como pode isso, depois de tanto tempo, não sei. Mas gosto de gostar. Talvez seja justamente isso que torna o triathlon tão interessante: ele permite medir muita coisa, mas nem tudo o que importa cabe em números. 


Nas semanas antes da prova entendi que o mundial 2027 seria nos USA, e não fiquei apetecido. Sem pódio, saímos de lá e não pensava em voltar pra premiação. Só que uma moça da organização me ligou no caminho pra casa - eu havia roubado a sacola de transição do atleta 1699 (fui oi 1698) e não fui pego em flagrante pelo fiscal de saída da transição. E aí precisei voltar, e voltei pra premiação, ao menos pra ver a galera e os resultados.

Saída feliz da T2

Diz o tracking do ironman que andei em 3º, provavelmente embolado na transição com mais alguns. O Arthur me passou a informação na saída da T2. Mas tinha certeza de que ao menos 2 que me passaram eram da categoria, e acabei em 7º. Apensar disso, no novo sistema de normalização por performance, que o ironman está usando para distribuir as vagas, aparentemente privilegia atletas experientes que tem alguma performance, e acabei sendo chamado pra vaga depois que já tinha ido embora. Uma certa pena de não pegar vaga para um mundial, mas mundiais são para passear também e o foco não é naquelas bandas. Laís ficou contente. Ano que vem tem outras ideias.

Vamos ver se a vontade (e o tempo) de escrever permanecem. Como a próxima prova é inédita, acho que vai rolar.



Nunca fiquei com esse tanto de branco. Se é sais que saíram é porque tinha sal pra sair.
Mas é do mar. Espero que seja do mar.