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domingo, 9 de outubro de 2016

Mundial de Ironman 70.3 na Austrália






Correr um mundial de qualquer coisa era algo que eu realmente nunca tinha pensado até uns anos atrás. Só depois de uns bons 4 ou 5 anos de triathlon comecei a pensar em que quem sabe talvez um dia classificar pra kona ou pro mundial de meio.

A classificação no Rio veio quase um ano antes da prova, o que deu bastante tempo pra planejar e organizar as coisas - obviamente todos os detalhes foram acertados no mês da viagem. Que aconteceu com a minha filha, pois a Daiane não poderia viajar em época escolar e o pequeno homem passaria muito trabalho numa viagem dessas.

Foi uma experiência única, a começar pelo lugar. A costa leste da Austrália é sensacionalmente bonita e de clima parecido com o Brasil. Sunshine Coast, onde foi a prova, mais especificamente na praia de Mooloolaba, é berço do Triathlon australiano com a praia de Noosa sediando provas de desde a década de 90 com 4500 atletas. Talvez no Brasil não dê isso tudo em todas as provas Ironman somadas, e lá há 30 anos já haviam provas (eventos talvez) desse tamanho lá nos confins da terra.

O país respira esporte e aparentemente todos fazem parto na água, pois é incrível a quantidade de gente nadando no mar e nas piscinas públicas espalhadas por todo lugar (dizem que também não sentem frio). O contingente nativo na prova era de quase 900 atletas, dentre os 3000.

Chegamos em Brisbane depois de 30 horas de viagem às 23:30. Com todas as tralhas que uma prova dessa implica fomos buscar o carro alugado. Lá descobri que eu tinha feito a reserva pra julho (era então 30 de agosto) e tivemos que negociar um carro pequeno com câmbio manual (que traria grandes emoções). Saímos do aeroporto sem comprar o chip 3G e logo estávamos perdidos à meia noite dirigindo na mão inglesa sem saber passar marcha ou dar seta.

Entrei num hotel e pedi wifi. O solícito velhinho que atendia (uns 80 anos) deu todas as dicas e a senha do sinal. Saímos de lá direto pro hotel, onde subi 4 andares de escada com a mala-bike e logo desmaiei de sono.

No dia seguinte a Laís programou passeios o dia inteiro. Inteiro aqui é da hora que amanhece até bem depois de anoitecer hahahaha. Foi um dia típico de turistar, Brisbane mostrou-se uma cidade muito bonita e surpreendente. Encaixei um treino de 40 minutos de corrida na margem do rio, o que acrescido de toda a caminhada, totalizou cerca de 32000 passos no dia. Uma coisa muito boa de se fazer na quinta anterior a uma prova kkkkk. Falando nisso a pequena fez uma programação sensacional, além de arquiteta pode ser também agente de viagem. Só me preocupei em ir :-). Tudo estava planejado em todos os lugares.

South Bank, Brisbane. Excelente pra correr, ver, fotografar

Sexta feira saímos às 7 para Mooloolaba, 90 km ao norte. Lá achamos a rua da casa onde alugamos quarto no airbnb. Só que não achamos a casa. Batemos numas portas e nada, e aí ligamos pra dona pra descobrir que a chave estava na caixa de correio.

Fui direto pra Expo buscar o kit, comprar CO2 e óculos de natação, uma breve circulada, tropeça num pro aqui e ali e fui nadar. Um mar muito gostoso, água clara e quente, muitas ondas e gente surfando. Baita diversão. Pacífico de águas quentes eu não conhecia. Voltei pra montar a bike, saí pra dar uma volta de tarde e posso afirmar que foram poucas as vezes que fiquei tão perdido na vida. Andei seguindo os caminhos, que eram cheio de quebradas, saí na rodovia, fui pra cidade errada e quando era hora de voltar peguei o iphone pra me localizar. Muito bom sair sem rumo. Pedalzinho testou tudo e aí então fomos novamente para a praia dar uma volta.

Caroline Stephens pediu uma foto, não pude negar

Pedal sem rumo pra testar a bike

Estava bem na hora da parada das nações, um 'desfile' dos atletas de cada país. Eu imaginava algo tímido, tanto que nem me programei pra ir. Só que estava um espetáculo. Todos os países chamados um a um no microfone, banda tocando, centenas, senão milhares de atletas na praia, cada um na sua delegação com a bandeira à frente. Foi um dos negócios mais legais que já vi numa prova. Muito muito bacana.  A impressão talvez tenha sido amplificada pelas olimpíadas recém encerradas, é claro. Mas foi sensacional.

Parada das Nações. Sensacional.


A noite, equipei a bike antes de jantar e dormir. O bom de pegar um jetlag de 13 horas é que isso é tão torto que praticamente não dá tempo de ficar errado. Sei lá, só sei que não senti muito, a única coisa estranha era acordar sem despertador antes das 6.

Sábado dei uma corridinha de ativação de 3 km e depois fui deixar a bike, logo às 10 horas. Deixei a bike coberta com a capa e fui embora, depois de mais uma circulada na expo. Aí então fomos passear numa praia uns 30 km ao sul, Coloundra. Muito legal, como todas da região, cada praia na verdade parece uma cidade autônoma. Ficamos lá metade da tarde e aí voltamos pra ver o farol que tem ao sul de Mooloolaba, um mirante espetacular das praias ao norte e sul. Dava pra ver toda a região da prova e pra onde se estenderia o pedal, até 20 km ao norte. Um sol de fim de tarde espetacular e vento menos furioso que no dia anterior deram a certeza de bom tempo no dia seguinte.

Transição bonita
Jantamos numa pequena cantina italiana numa área comercial próxima à casa que estávamos, assim evitamos a muvuca da praia a noite, que era grande. A Dona ficou tão impressionada de ver brasileiros lá que tirou uma foto nossa pra por no perfil do restaurante no facebook :-).

Amanhecer do dia da prova
Largadas

Domingo dia da prova finalmente. Saí bem cedo, pra pegar o nascer do sol fantástico que teve naquele dia. Vento calmo e mar que mais parecia uma piscina. Essa prova tem uma transição interessante: a natação acontece no sul, e a T1 é bem longa, as bikes são dispostas ao longo de uns 800 metros e depois ainda tem a transição da corrida, que é um pouco mais afastada. Na prática tem 1200, 1400 m de transição no total. Assim, entrei por um lado pra mexer nas coisas e saí do outro lá longe. Voltei e achei a Laís no deck do banheiro com vista para o oceano (foto abaixo). De lá era perfeito pra ver a largada. Ali me vesti, alonguei e fui nadar um tantinho. Piscina confirmada. Voltei pra espera minha largada, os PROS saíram da água e fui pro curral.

Área da largada

Largada muito interessante, saímos da praia, nadamos 150 perpendicular à praia e então alinhamos numas boias pra largar efetivamente. Começar na água gera toda uma violência diferente de largar da areia: 450 seres flutuando na vertical ocupam bem menos espaço do que na horizontal, então na hora do tiro é uma profusão de socos e ponta-pés bem divertida.

Natação tranquila, firme e boa. Saiu bem reta, e diferente das outras largadas em ondas, não vi passar nem fui passado por nenhuma touca de cor diferente, o que denotaria o nível elevado e muito próximo dos atletas. Faz sentido, é um mundial, meu filho.

Saí da água bem, das melhores natações da vida. Nada excepcional, mas do jeito que tinha que ser, 1:30/100m cravados. Parti pra transição longa, saí pra pedalar já de cara nuns morrinhos pra sair da cidade e logo entramos na rodovia que seguiria por 15 km rumo norte. Vento sul muito leve e ritmo assustador, mas com muito trânsito. Vi muita gente das largadas anteriores, e pedalar na esquerda pra passar pela direita era estranho.

Saindo pra T1, 800 m de trote
A coisa foi toda empelotada até o retorno - tanto pelos atletas mais lentos quanto pelos safados pegando vácuo descarado. Era difícil ultrapassar tripas de 3, 5 atletas de uma vez só. No retorno a coisa começou a espalhar, um pouco de vento contra mas a empolgação do início mantiveram o ritmo bom. Ver virar parciais de 10 km seguidamente acima de 40km/h não é lá muito comum, mas a potência estava boa, o asfalto era ridiculamente liso e o fato de não ter pedalado na semana pareciam atenuantes que permitiam arriscar.

Cheguei no trecho ondulado, estrada fechada como a rodovia e um visual de interior. Logo dei de cara com a bifurcação dos dois loops que haviam no trecho de serra. À direita era a primeira volta, e era uma parede. Bem íngreme e curta, tive que fazer zigue zague na marcha mais leve e ainda assim deu trabalho. Esse trecho foi fantástico, muita gente nas laterais da estrada, mensagens escritas no asfalto. Me senti no tour de france hahahah.

No pedal


Descidas técnicas e pessoal suicida, fui ultrapassado demais nessa parte. Não sei pra que um sujeito senta no quadro numa bike TT numa descida que nunca viu na vida, entra na curva alucinado e quase sai na tangente. Na verdade uns saíram e foram parar no mato.

Depois outra volta, sem a parede e então o trecho final até a cidade, agora com uma ventania de sul absurda (isso sempre é amplificado pelo estado lastimável das pernas ao final da bike).

Entrei na cidade feliz e empolgado com o percurso, larguei a bike e me fui a correr. Corri tão bem no começo que resolvi me suicidar. Saiu uma das melhores bikes da vida, a natação foi boa, era um mundial, então como não arriscar ? Além disso eu tinha treinado tão pouca corrida nos últimos dois meses que já quebraria mesmo, então que seja com estilo. Falando em corrida, no começo de julho tive uma coisa horrível na lombar. Fiquei três semanas sem correr absolutamente nada e treinando moderadamente as outras modalidades. Aparentemente tenho umas hérnias querendo aparecer, mas suspeito que foi algo agudo, como advoga o Doc Daniel Carvalho. Ele, o Edu Monteiro e o Éder me salvaram, consertaram e prepararam a tempo de suportar o plano do Mestre Roberto Lemos de me por nos trilhos em 3 semanas de específico em agosto.

Voltando à corrida, era simples: duas voltas de 10.5 km, indo pro norte através de um morrinho de um km e depois tudo plano. Foi uma delícia. Corri forte no início movido pela empolgação e orgulho. Pernas muito leves, o que já me deixou feliz pelo pedal duro que foi. Outra coisa que me fez sair forte e tentar manter foi a dinâmica da prova: muita gente das categorias superiores, que largaram depois, me passando facilmente na corrida. Fiquei realmente impressionado. Ô povo pra correr !

Fechando a primeira volta


Do meio da segunda volta em diante implodi. O vento era contra e a inclinação me matou. Comecei a correr muito mal, com um cansaço enorme apesar das pernas boas. Acabei ingerindo apenas um gel no km 12, mas comi bem na bike. Não sei, só sei que me acabei tentando manter o ritmo, que não mantive, mas cheguei dignamente e com uma alegria enorme de completar aquela prova. Que clima, que vibe, certamente uma experiência única. Encontrar a Laís na boca da chegada com a bandeira do Brasil, chegar explodindo e tentando fazer o máximo que dava, afinal era um mundial. Não tem preço.

Chegando !
Yeah !
Único

Melhor filha do mundo !
O mito, mark allen. O outro mito sou eu kkkkkk

Segunda feira depois da prova começamos a segunda de três partes da viagem. Antes porém fomos pra Noosa, e pro parque nacional de mesmo nome apreciar a vista numa trilha de 7 km que nos levou ao hell's gate, um local espetacular para avistar baleias que não vimos e que dava uma visão impressionante da costa australiana.

Depois foi só seguir pra Cairns, mergulhar durante dois dias e uma noite na barreira de corais, aí ficar mais uma semana perambulando por Sidney, Melbourne e então começar a volta. Viagem sensacionalmente legal.

O retorno teve emoções de vôo atrasado por problemas mecânicos (não bom escutar isso antes de embarcar num avião que vai cruzar o pacífico), pernoite extra em SP e malas extraviadas, incluindo o case da bike, o que causou sérios pânicos no vivente que escreve. Depois de dois dias, tudo certo.

Muito obrigado a todos pela torcida, apoio e energias positivas emanadas até o outro lado do mundo. Até a próxima !

Dados Técnicos

Link do garmin aqui. Bati o botão de lap no guidão e tive que começar outro pedal hahaha. Mas dá pra entender.

Corri com o go run ride 4, com o capacete aero e com a roupa toda abaixo do neoprene. Tudo certo. Alimentação foram duas medidas de GU Endurance na bike com 4 gels, 2 mariolas e uns goles de gatorade. Na corrida 1 gel e coca cola.

Prova atípica para os meus padrões. Natação boa, bike ganhando posições e corrida perdendo algumas. Corri bem até o km 12, depois caiu um pouco e no 17 implodiu tudo hahaha. Bike a 87 % do FTP foi muito boa. Percurso metade plano, metade técnico com ventania. Asfalto perfeito em boa parte, mas na serrinha tinham patches e rugosidade.

Resultados oficiais aqui, meu aqui. Nível estratosférico, não deu nem pro cheiro hahah.


;-D
Hell's Gate, Noosa National Park

Noosa ;-)



Ao sul de Mooloolaba

 
Legs up !

A Grande Barreira de Corais !  


segunda-feira, 18 de julho de 2016

Training camp Urubici

Indo pra Urubici frequentemente, há tempos queria fazer um camp por lá. Como todo camp, a ideia era uma imersão nos treinos, falar besteiras relacionadas e dar risadas. Acabamos confirmando em cima da hora e fomos o Fabrício, Manente e eu.

Saímos sexta a noite pra aproveitar o tempo. Depois de quebrar a cabeça pra enfiar as bikes no carro chegamos lá por volta da meia noite.

Estava frio, com previsão de mais frio porém tempo seco sábado. Acordei umas 8 horas e o céu estava cinza mas sem sinal de chuva. As sete faziam 3 C disse o Fabrício, que acorda antes mesmo de dormir.

Arrumamos tudo lentamente pra dar tempo da temperatura subir, inclusive tentei arrumar uns pequenos problemas hidráulicos. O frio anda tão forte que estragou uns encanamentos por lá.

Deixamos o carro na cidade e zarpamos pro pedal até o Cruzeiro, 90 km ida e volta com uma baita montanha no caminho. 700 metros de subida em 12 km pra aquecer.

Saca só a altimetria do longo de pedal

Ali já começamos a alucinar, o manente ligou o turbo em vôo cego, pois estava sem o garmin e portanto ia só na percepção de máximo o tempo todo. Eu subi forte e descontrolado no início e depois estabilizou. Alcançamos o Manente no topo (ele voltando pra nos achar) e seguimos no terreno fantasticamente ondulado dos campos do topo da serra, por volta de 1500 metros de altitude.

Estava frio mas tudo pode piorar. Chegando no Cruzeiro começou uma garoa, parecia que estava feio pro lado de lá, então assim que deu 45 km voltamos pois estava realmente frio. E claro, tudo piora. De onde vinhamos o céu estava preto e tempestuoso.

Voltamos com chuvinha mas o chão bem molhado e vento contra. Nunca senti tanto frio pedalando. Os pés mesmo com meia e saco plástico doíam.

Vi um cartaz de alguma coisa pendurado num poste. Era de plástico grosso, já se rasgando do sol e vento. Portanto não necessariamente destruí o cartaz, mas usamos pedaços dele pra fazer um moderno wind shield rural de emergência. Tentei por um pedaço na testa, que crescida que anda, comporta cada vez mais frio. Mas ficou ruim e tirei.

No Pericó parou de chouver e depois começou a secar. Descemos pra urubici já seco, ainda bem porque aquela serra com chuva causa caimbras nos dedos das mãos de tanto frear.

Uma vez na cidade fomos largar as bikes e almoçar. Almoçamos toda a comida que ainda estava no buffet do restaurante e depois fomos pra casa pra correr. Com um kilo de comida cada um foi difícil, então começamos ali pelas 17 horas.

O Manente faria o longo e eu e o Fabrício iríamos só soltar. Saímos juntos e por um km o Fabrício pensou em devolver o almoço. O Manente se foi com poucas instruções de orientação rumo ao desconhecido e logo desapareceu.

Voltamos com 3 km pra fechar meia dúzia de kms regenerativos e escureceu rápido. Morrinhos e terra batida, perfeito.

Já tomando um vinho fui olhar pra escuridão e lá vinha o Manente com o celular alumiando o caminho, pelo menos não se perdeu kkkkk.

Saímos pra jantar um absurdo de pizza e falar besteira até cansar, mas sempre assuntos científicos relacionados ao estado da arte do treinmento de endurance. Ainda trouxemos embora a pizza doce na caixinha.

Domingo saímos mais cedo pro treino de transição. Um pedal de ida e volta até o final da estrada que vai pro corvo branco, com céu azul e temperatura de sobrar vestimentas.

Fizemos o intervalado que foi excelente e depois a corrida de transição, cada um com um treino diferente.

Aí então foi só arrumar tudo e voltar pra casa no início da tarde, depois de um tratamento de crioterapia à base de rio. Baita fim de semana com amigos mais loucos que a gente, num percurso animal, duro, bonito e divertido, sem praticamente nada de trânsito, com altitude e ar puro. A repetir periodicamente. E são dessas que nascem as melhores ideias. Vem aí algo que você nunca viu. Fodaxman, em breve. #retardadostri #ironmind #urubici #fodaxman

Mirante de Urubici. A subida até ali requer muitos Watts
Na volta a alegria é maior do que na ida, a amiga gravidade ajuda
Solto a 70 % na terra batida
A pizza assustou o casal lá no fundo.
Essa coisa é do tamanho da roda da bike do Fabrício

Plantação de bikes
O cara desmaiou lá no banco de trás

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Correndo em Paris

Incrível como correr em cidades diferentes dá uma nova perspectiva às coisas. Consegui arrancar um tempinho e em algumas cidades da viagem de férias e vou dizer, é algo sempre imperdível.

Obviamente Paris era a principal curiosidade. Eu fiquei procurando locais para correr e não achei muita coisa óbvia fora de parques, mas queria andar pela cidade, me enfiar em ruas, passar por lugares que não passamos nos passeios. E aí num dos dias 'à noite' saí às 20:30 num sol espetacular para um roteiro que inventei com o mapinha do metrô nas mãos.

Não é uma cidade muito fácil para correr. Muitos cruzamentos, escadas, e gente, muita gente. Mas deu pra salvar bons trechos nas margens do Sena, no Jardim de Toulerie e por incrível que pareça na calçada da Champs Élyssés. Nada pra desenvolver muita velocidade, claro. Até porque não dava. Foto pra todo lado e muitas paradas contemplativas. Cidade desgraçada de bonita, e com sol até às 10 da noite, o povo tá todo na rua a essa hora correndo.

O circuito foi simples, uma volta longa que fechou em uns 16 km. Saí do hotel perto da Torre e segui pra Notredame. De lá atravessei as ilhas e passei por dentro dos prédios do Louvre, aí saí no Jardim de Toulerie e peguei a Champs até o Arco. De lá achei que seguiria reto até a torre para voltar.

Aí deu problema. Paris não tem 'quadras'. Nem esquinas, é tudo torto e arredondado, de forma que saí do Arco e me perdi geral até chegar no rio, a um km de onde gostaria. Atravessei e como peguei uma paralela que na verdade não era paralela por onde tinha começado, me perdi de novo pra chegar no hotel. Era pra ter dado uns 12 km hahah.

Depois de Paris consegui fazer o longo na Normandia, em Moidrey, colado no Mont Saint Michel. Outro espetáculo, mas este sem fotos e complicação: uma estrada de terra passava atrás do hotel e tinha 10 km, foi só ir e vir e ir e vir mais um pedaço e saiu um baita treino, o que salvou a maratona.

Aí em Vouvray, no úlitmo dia, saí pra um trote de 10 km à noite que acabou saindo forte pela chuva e queda acelerada do astro rei. O resumo é o seguinte: corra em lugares inéditos. Vá se perder em algum canto, descobrir ruelas e vistas diferentes em viagens. Garanto que é sensacional.


Saindo do hotel lá estava ela escondida num beco ainda não visto
O onipresente Sena num fim de tarde espetacular
Dorsay

Uma careca e a Notredame
Por do sol, ilha da cidade com a notredame
Louvre
Ah, sim. O Tour
A corrida mais elegante do mundo hauhauahu
Essa rotatória do Arco do Triunfo tem umas 12 saídas
De volta, depois de errar o caminho. A torre já acesa valeu.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Os Alpes

Estar naquela aresta de gelo e neve açoitada pelo vento, depois de quatro horas de escalada durante a madrugada, era a mistura da realização de um sonho com um estado de atenção quase catatônico. A GoPro presa entre o bastão e a mão direita foi o que salvou o registro daqueles instantes onde tudo era concentração. Um passo de cada vez, a piqueta alternada com o bastão, crampons firmemente cravados, todos os movimentos calculados. Friamente calculados, no sentido literal.


O início

Essa viagem sensacional começou 8 dias antes. Saí do Brasil sozinho no dia 2 de agosto rumo a Zurique. O Adriano foi no dia anterior, mas dada a confusão que a TAM fez, ficou preso em SP por 24 horas e ainda nos encontramos no aeroporto antes do embarque. Ele iria para Milão, aeroporto final da viagem, pegaria o carro alugado e todos nos encontraríamos já em Zermatt, base para o Mattherhorn e os treinos técnicos e de aclimatação. Os demais integrantes da expedição, Anastácio, Juan e Nilson já estavam há 4 dias em Interlaken na Suiça fazendo trekking e aclimatando.

Começando bem...
O voo pela Swiss foi tranquilo, tomei 4 garrafinhas de vinho e dormi muito bem espalhado em três assentos. Os únicos vagos no avião, grande sorte. Cheguei em Zurique às 11 da manhã de sábado 3 de agosto com a mochila cargueira, a de ataque abarrotada de tralhas e um haulbag entupido de equipamentos. Arrastei a tralha toda e peguei o trem para a estação central, não antes de comprar o ticket de trem para Zermatt. Na estação enfiei tudo num guarda-volumes e saí pela cidade à procura da loja para comprar as cordas, capacete e mais alguns equipamentos. Acabei andando um pouco pelo centro e pegando um bonde elétrico. A cidade já impressionava pela organização, mas o que me deixou perplexo foi o calor, 36 graus no termômetro e eu de bota e calça comprida. Voltei das lojas com as tralhas, soquei tudo no haulbag que já estava cheio e fui esperar o trem. Encontrei uma loja enorme com vendedores-escaladores que escalam o Mattherhorn como a gente escala o Cambirela. Troquei bastante ideia sobre qual corda usar, peguei várias dicas e a previsão do tempo. Não gostei da previsão.

Zurich 

Zurich
Caminho para Zermatt
Última estação
Subindo o vale
Dentro do vale
Montanhas à vista, talvez esse seja o Monte Rosa


Zermatt

A viagem pra Zermatt começou debaixo de chuva e céu carregado e depois foi melhorando. Atravessei praticamente toda a Suíça de norte a sul em pouco mais de duas horas de trem até a cidade de Visp, onde fiz conexão para entrar no vale que termina em Zermatt. As estações vão ficando cada vez mais próximas umas das outras e o vale cada vez mais fechado. Montanhas pontudas e nevadas já apareciam numa primeira visão dos alpes desde o chão. Eram realmente cristas afiadas. Fotografei o que pude, quase deixei um braço num poste ao bater foto pendurado pra fora da janela do trem e cheguei aproximadamente às 19 horas. Achei uma rede wifi e mandei mensagem pro pessoal que deveria estar no hostel ir me encontrar pra carregar as tralhas. havia uma mensagem do Anastácio: "pega um taxi elétrico". Andei uns 10 passos para fora da estação e tomei um susto ao ver a pontinha do Matterhorn, alaranjada pelo fim de tarde. Já da estação, de dentro do 'centro da cidade'. A montanha realmente domina tudo por lá, uma das mais bonitas e conhecidas do mundo. Todo montanhista um dia já babou em cima de uma foto do Mattherhorn, nem que seja na caixa do toblerone. Uma pirâmide perfeita, um dente de tubarão se erguendo a 4400 metros de altitude, 2800 m acima da cidade que fica a 1600 m. O Símbolo da Suíça é dividido igualmente com a Itália, onde é chamado de Monte Cervino.


Praça e estação de trem de Zermatt. Trilhas para todos os lados !
Ele, O Mattherhon !
Zermatt é uma cidade impressionante. Não é bem uma cidade, mas uma vila alpina com casas medievais mais acima no vale, pequenos prédios comerciais e casas com cara de cartão postal por todas as encostas, localizada no centro sul da Suíça na fronteira com a Itália. Não há carros à combustão na cidade. Tudo gira em torno das montanhas, para as montanhas. Tudo vem delas, o turismo de esporte e aventura move a economia. Impressionante andar por lá e ver crianças de 4 ou 5 anos com mochila nas costas e tênis de trilha, velhinhos e velhinhas fortes andando com bastão de caminhada por tudo quanto é lado e escaladores de todo tipo de botas de gelo, mochilas penduradas de piolet e cordas entrando nas padarias. Simplesmente tudo voltado ao outdoor.

O eletro-taxi me deixou no hostel com todas as tralhas e já encontrei a galera ao sair do carro. Nos organizamos e logo descemos pra jantar e encontrar o Adriano. Ele já deveria ter chegado, e o encontramos vindo com três mochilas rua acima. Tudo certo, exceto por uma pedra ter caído na estada e bloqueado a pista, fazendo com que ele tivesse que deixar o carro uma estação antes. A estrada acaba na estação de Tash, última estação antes de Zermatt e todos que vão de carro tem que deixar o possante lá estacionado e pegar um trem ou ir a pé por 6 km até a cidade. Neste dia ainda tivemos boas vistas do Mattherhorn totalmente limpo, coisa impressionante aquela montanha. Desesperadoramente linda.

Essa foto saiu minutos depois de chegar no albergue da juventude em Zermatt.
Choveu o dia todo e ás 20:30 olha só isso !
Na praça central antes de jantar colocamos o papo em dia e eu atualizei a turma da previsão do tempo que recebi na loja em Zurique. A vendedora que me atendeu já tinha escalado todos os 4000 dos alpes no inverno e verão. Me disse que a melhor janela para o Mattherhorn naquela semana era a segunda-feira, que depois o tempo ficaria horrível até sábado. Isso significava que teríamos que subir para o refúgio já no domingo, totalmente sem aclimatação e depois de 36 horas de viagem. Sem chance. Além disso, já tínhamos reserva para terça-feira. Ainda assim achamos melhor checar e liguei pra lá. A italiana me disse em alemão e eu entendi em inglês que não havia lugar no refúgio. Voltamos ao plano original e fomos escalar rocha no Riffelhorn no dia seguinte.

Riffelhorn

Saímos tarde da cidade. Pegamos um trem que ia até a estação de Rotenboden, a 2800 m de altitude, onde entramos numa trilha de 10 minutos rumo ao afloramento rochoso que era o Riffelhorn. Parecia muito simples, pequeno, fácil e perto. Mas como tudo em montanha, na verdade é maior, mais alto, mais longe e mais difícil do que parece à primeira vista.

Chegamos na base da face norte e vimos um pessoal escalando e descendo de rapel. Fomos até lá achando que a via de escalada era por ali, mas não. Ali era a via de descida. Os guias treinam com os clientes corriqueiramente naquele lugar para ver se os ditos tem aptidão suficiente para o Mattherhorn. Ficamos ali olhando o croqui das vias até um cara nos perguntar de que parte da Rússia nós éramos. Nos escutou falando e cismou que era russo. Explicamos que não, mas ele insistiu e pergunto sério pro Nilson de onde nós éramos na Rússia. Não entendi nada, mas deixamos o cara achando que o Nilson era russo. Logo uma dupla que aparentava ser de guias nos deu duas dicas, apontou a outra face e disse pra seguir as plaquinhas azuis na trilha até a base da via que queríamos escalar. Já começamos a ver como os guias são simpáticos e solícitos com quem não os contrata.

Contornamos todo o maciço por um caminho de encosta elevada acima do glaciar lá embaixo. Ao fundo, o Breithorn, o Monte Rosa e várias outras montanhas acima de 4000 m compunham um ambiente alpino espetacular. Estávamos finalmente começando uma escalada alpina. O ambiente parece que quer engolir você, a sensação de pequeneza e insignificância ali, apenas a 2800 m e tão perto da civilização, já se fazia presente. Éramos só nós na face oculta do Riffelhorn naquela tarde. O caminho não tinha nada de simples, uma sequencia de rampas, aderências e contornos de precipícios nos levou a uma passagem complicada que o Adriano e o Anastácio passaram em solo. Eu armei uma segurança para o Nilson e o Juan passarem e então nos reunimos na base da via Egg, um quarto grau com lances de quinto. Visual estonteante pra todos os lados, principalmente pra cima. Seis cordadas até o cume.

Lago na base do Riffelhorn
Começo da trilha para a base das vias
Glaciar  descendo do Monte Rosa
''''Trilha'''''
Mais trilha
Aqui o bicho pegou
Tanto que armei uma segurança 
Na base da via Egg, 6 cordadas 4º
Adriano ba base da via
O outro adriano no topo do Riffelhorn, agora um escalador de vias alpinas
Depois do Rapel
Já era bem tarde e com aquelas botas desajeitadas achamos melhor eu voltar com o Nilson e o Juan. O Anastácio seguiu com o Adriano guiando. Refizemos o caminho até a face norte e ficamos por lá esperando os dois aparecerem no cume. O Nilson preparou uns sanduíches gigantes, fui até a base da via de rapel, voltei, o Juan foi negociar água em espanhol com o alemão da estação de trem, tiramos fotos e mais fotos até que apareceram dois pontinhos se mexendo na crista. Fecharam a escalada lindamente passando pelo cume e descendo pela aresta oposta, uma escalada alpina à vista, só com um croqui vagabundo na mão, de botas de trekking e sem praticamente nenhuma margem pra erro devido ao avançado da hora. Espetacular.

Arrumamos todas as tralhas e começamos a caminhada de volta à Zermatt. 1300 m de descida numa trilha absurdamente linda. Um quadro pra cada lado que se olhava na luz perfeita do entardecer. É difícil dizer, mas aquela foi uma das trilhas mais bonitas que já percorri. Chegamos em Zermatt depois das 20 horas, bem cansados e contentes. Uma pizza com cerveja foi o jantar e arrumamos as tralhas para o dia seguinte, para a escalada do Breithorn, uma montanha de 4163 m que seria a aclimatação perfeita para as escaladas por vir.

O motivo do atraso da descida pra Zermatt
Mais motivos
E tinha hora que não dava pra continuar
Essa foto ficou terrível ! É o Breithorn, que escalaríamos no dia seguinte

Trilha. Esse é o Adriano.
Os caras se preparam para o inverno !
A trilha acaba mas os trilhos continuam !
Breithorn

O acesso para o Breithorn é um capítulo à parte. Pode ser feito na raça, andando desde a cidade em dois dias como uma escalada em si ou como um treino. Optamos pelo treino e fomos de teleférico até a absurda altitude de 3800 m. Se tem uma coisa que a Suiça faz bem feita são trens. Mas os teleféricos são perfeitos. É praticamente uma rede, com estações hubs e conexões, até uma viagem para o outro lado na itália pode ser feita pendurado. E quase nada pode ser mais caro por metro percorrido, a subida ao Mattherhorn Paradise, a estação no glaciar ao pés do Breithorn e da estação de esqui mais alta dos alpes saiu por 100 francos suíços por pessoa. Na subida fiquei pensando em como é que iríamos pro Glaciar se os cabos acabavam na parede rochosa lá em cima onde o céu faz a curva. Mas a mania de fazer túneis se equipara à de fazer teleféricos. Um túnel de 200 m por dentro da montanha nos leva até o outro lado dentro do Glaciar. Um lado de rocha e o outro de neve e gelo, com um hotel encravado dentro na pedra. Coisa tipicamente alpina.

Uma cabovia...
Um teleférico internacional
Zoom máximo e precisão milimétrica: o refúgio Solvay, a 4000 m no Mattherhorn.
Não sei como essa foto saiu.
A outra face do Mattherhorn, a montanha onipresente e mutante
Começamos a subida às 11 da manhã. Nos equipamos e fizemos duas cordadas, eu e o Nilson em um e o Anastácio, Adriano e Juan na outra. Seguimos por meio da pista de esqui desviando de esquiadores e lifts e saímos da parte demarcada rumo ao caminho marcado na neve. Uma galera das boas estava na montanha, gente indo e vindo. É o 4000 mais acessível dos alpes, por esse caminho pelo menos, pois como toda montanha lá, parece que foi esculpida à faca e tem faces pra todos os gostos, do quase-passeio-no-parque-em-dia-de-sol até as suicidas faces nortes totalmente verticais.

Chegamos ao cume em cerca de 1h40min. O típico eram 3 horas, o que nos deixou bem animados. Um visual de dar desespero lá em cima, cristas afiadas por todos os lados e montanhas a perder de vista na direção da Itália. Nossa primeira alta montanha alpina ! Uma bela escalada, bom ritmo, tempo espetacular o visual onipresente do sempre mutante Mattherhorn, uma montanha que tem uma cara por cada lado que se olha.
Cume !
Adriano no cume
A raça toda
GoPro sempre dá uns efeitos legais
A subida é looooonga !

Bem longa. E a neve estava empapada

Cume com os outros cumes atrás
A descida foi a pior parte. Era muito tarde, acho que 14 horas, e a neve estava totalmente mole e o calor terrível. Chegamos espalhados e estragados na estação. Voltamos cedo à cidade e fomos comprar alguma comida para o dia seguinte, alugar os crampons que faltavam, etc. Fomos na agência de guias e só consegui alguma informação lá depois de dizer que queria contratar um. Se chegar perguntando qualquer coisa você só ganha um dedo apontando para o mural que tem os telefones e nomes dos guias.

A menina foi bem objetiva quando perguntei quão precisa são as previsões do tempo lá. Very precise. Não tínhamos tempo para esperar, o refúgio do MontBlanc já estava marcado e pago há um mês, a viagem era cronometrada. Faz parte ficar à merce da natureza. Como o que não tem solução solucionado está, subimos no dia seguinte para o refúgio Hornli, na aresta de mesmo nome na face Suíça do Mattherhorn.

Mattherhorn

Segunda feira realmente tinha sido um dia perfeito, o único onde à tarde as nuvens não tamparam a montanha em nenhum momento. A manhã de terça foi melhor ainda. Saímos da cidade cedo de teleférico até Schwarzsee, a 2583 m de altitude, onde começamos a trilha de 3h30 até o refúgio. Enquanto subíamos rumo ao céu azul aquele dente de rocha ficava cada vez mais próximo. Uma galera vinha descendo, muito cedo, já tendo feito cume. Todos falavam que o tempo estava bom e ia piorar, igual à previsão. Mas tudo azul, igual a previsão. Ao meio dia o céu começou a fechar e a máquina de nuvens do lado italiano começou a funcionar. Igual à previsão.

Passamos por cristas, passarelas de metal encravadas na rocha, arestas e finalmente chegamos ao refúgio já com tempo feio, vento e começo de neve. Entramos e fizemos o checkin. Ficamos sabendo que não havia água corrente no refúgio e que não era permitido cozinhar lá dentro. Excelente notícia, ainda mais com a garrafa de 1,5 L cotada a mais de R$ 20,00 ;-).

Uma curva, mirante e lugar pra base-jump, tudo junto
Trilha equipada, não é bom escorregar
Pequenos que somos...
A trilha acaba e aparece uma passarela chumbada na rocha !
E escadas...
Chegando perto do refúgio Hornli
Montanhas por todo lado, pra todo lado que se olhe
Na boa, essa foto ficou espetacular...
A quantidade de elementos num mesmo quadro...
The Alps !
O famoso refúgio de montanha a 3200 m na crista do Mattherhorn
Percebemos o quão fechado é o negócio de montanha na Suíça. Os guias são extremamente fechados, não falam nem olham pra ninguém fora do grupo deles e os refugieros torcem o nariz pra quem vai sozinho. Um ambiente nada agradável que não é comum pra quem escala nos andes. Comercial demais, em alguns casos parece que os guias trazem os clientes na coleira durante a escalada, tamanha é o controle que exercem sobre eles. Haviam vários no refúgio, cada um com seu cliente. Poucos escaladores sozinhos, apenas nós, dois russos, dois casais da alemanha e mais uns perdidos.

Enquanto eu estava fazendo alguma coisa lá fora o Adriano veio dizer que tinha uma notícia ruim e uma horrível. A ruim era que a previsão do tempo realmente era confiável, a horrível é que todos os guias tinha desistido da escalada e descido. Até sábado não aceitariam mais reservas.

Fomos descansar um pouco, organizar as tralhas dentro do quarto. Não consegui dormir nada, a janela bem na minha cara dava visão completa para o Mattherhorn, que estava só um terço visível, o restante tampado em nuvens.

O tempo abriu novamente perto das 18 horas e eu resolvi sair um pouco. Fui até a base da escalada, a 10 min do refúgio. Esses refúgios nos alpes merecem um livro. Impressionante como as estruturas são robustas, construídas em lugares impossíveis. Apesar disso, ainda são caros mesmo para os padrões europeus, do leste pelo menos, de forma que onde é permitido muita gente ainda acampa. Espiei o começo da via, escalei os primeiros 15 ou 20 metros e me vi num lugar totalmente exposto, onde me ocorreu que eu não tinha avisado ninguém onde iria. Consegui sentir meio porcento da escalada, e vi que se tivéssemos tempo bom aquilo seria possível. Desci dali com todo o cuidado e encontrei o Adriano vindo. Logo vi o Nilson e o Juan saindo rumo ao Glaciar para procurar água. Fui com eles e encontramos uns búlgaros gente boa e ficamos lá batendo papo até começar a esfriar de verdade. Acabamos presenciando uma avalanche na face norte do Mattherhorn, logo acima do acampamento. Impressionantemente assustadora.

Voltamos com água e com tempo aberto às 21h cozinhamos o jantar nas mesas fora do refúgio. Batemos papo e a esperança do tempo melhorar fez todo mundo no refúgio se mexer e arrumar o material para escalar as duas da manhã.

A base da via que escalaríamos... às 20:30 havia uma esperança no céu...
Pro outro lado..
O primeiro lance de cordas fixas
Subi esse e mais dois acima. Escalei 15 metros do Mattherhon :-D
E depois fui ajudar a buscar água
A geleira ali ao fundo desmoronou legal nessa hora.
O acampamento dos búlgaros e russos.
Saca o lugar do jantar e o céu animador...
Acordamos às duas horas e dava pra ouvir o barulho do vento. Olhei pela janela e só via nuvens na noite escura. Barulho por todo lado, todos se arrumando pra sair. Levantei e a galera ficou nos beliches. Fui no refeitório e os dois russos estavam lá. Saí do refúgio só de camiseta e não senti frio. Mau sinal, calor em alta montanha é tempo ruim. Agora ventava pouco e não tinha neve caindo, apesar de ter uma neblina forte.

Voltei a entrar, comi umas torradas e falei com os russos. Não responderam à primeira pergunta e quando insisti um deles só disse que o problema era o vento, e como não tinha muito, iriam. Voltei pro quarto e ficamos confabulando. Momentos tensos e agoniantes. Estar tão perto de um objetivo... não poder tentar é o que mais me apavora quando vou pra montanha. Se eu fizer o possível, brigar um bocado, fico satisfeito mesmo se não chegar no cume, como no Chimborazo. Mas nem sair do refúgio... Falamos por um tempo e achei que tinha vistos luzes na crista do Mattherhorn. Deviam ser escaladores, mas estavam muito acima.

Logo percebi que eram relâmpagos. E veio o vento e começou assoviar forte de novo. Bastante vento e depois muito vento e mais relâmpagos. Ponto final, não iríamos e pronto. Pensando bem, fizemos o que podíamos. Treinamos direito, subimos pro refúgio com a previsão ruim, estávamos bem equipados. Como disse o Anastácio, um dia da montanha, outro do escalador.

Os russos que tinham saído logo voltaram e se enfiaram nas camas. Não lembro quem soltou: "se até os russos voltaram, é porque a coisa está russa". Foi gargalhada em português pra todo lado.

Quando eram 7 horas descemos para o café e logo arrumamos tudo pra voltar pra Zermatt. Começamos a descer pouco depois das 8 e a montanha estava totalmente tampada. Bastante vento na crista abaixo do refúgio, quase que o Adriano saiu voando. O chapéu decolou. Descemos até estação de Schwarzsee para pegar o teleférico já com alguma chuva. Só que não tinha teleférico. Lá tem estação meteorológica por tudo quanto é lado, e acima de 60 km/h de vento os teleféricos não operam. Teríamos que usar o velho método e descer a pé até o vale.

Descendo...
A cidade lá embaixo... isso a noite ficou muito bonito, pena que a foto não prestou

Até parece que é uma trilha na Suíça
Nisso passou uma galera correndo. Uniforme de escola, caras de 15 anos. Uma gurizada que veio da cidade e às 9:45 já estava 1200 m acima. Impressionante.

Descemos tudo até o vale, caminhada sob chuva e visual bucólico. Fiquei satisfeito com a tentativa e com gosto de que um dia tenho que voltar. Ou não. Tem coisa demais pra fazer. Ou não. No hostel arrumamos tudo e levantamos âncora. Good bye Zermatt. Eu volto sim, com certeza. Sim. Valeu muito a experiência. Os treinos serviam também para o MontBlanc e o lugar espetacular onde passamos esses dias por si só já valeriam a viagem toda. E tentamos. Subir com a previsão errada e ver todo mundo descendo não foi fácil, mas era o mínimo que podíamos fazer, tentar. E nos preparamos na noite anterior, saí do refúgio na madrugada. Não deu, tudo bem. O que não admitiria nunca era ter ficado na cidade e nem tentar. Tá bom assim.

Vai caber ???
Nossos equipos eram volumosos. O medo até então era aquilo não caber junto com a gente no carro, um pegeout 308 sw. Pegamos o trem na estação para Randa onde o carro estava e poucos minutos depois desembarcamos pontualmente. A duração da viagem é medida em minutos e é exata, pra variar, como tudo que é mensurado em tempo na Suíça. Até a hora da entrada do tempo ruim é certa.

O Adriano apareceu com o carro e começamos o processo impressionante de zippar 2m3 de tralhas e mais 5 viventes bem nutridos num carro. Milagrosamente teve espaço pra tudo. Voltamos pela estrada que serpenteia vale acima e logo estávamos indo rumo à Chamonix. A segunda metade da viagem estava começando sob chuva das boas.

Chamonix

Depois de alguns visuais de babar entramos na França sem perceber. Começamos a descer pra Chamonix, que fica a 1000 m de altitude. Encontramos o hostel com alguma dificuldade devido ao operador atrás do GPS. O lugar era aos pés do teleférico do Brevent, a montanha que fica bem em frente à Aiguille du Midi, e de cara para o Mont Blanc. Mas não vimos nenhum dos três, nada na verdade, só chuva fina e céu fechado de um quarta-feira cinzenta. Um calafrio me percorreu a nuca ao pensar naquele tempo até sábado, dia de ir para o MontBlanc.

O Nilson e o Juan foram achar uma lavanderia, afinal estavam na estrada uma semana a mais do que eu e o Adriano. Descemos para achar uma padaria e almoçamos. Andamos o centro da cidade e exploramos a vizinhança. Estar ali era estranho. Um lugar que eu leio e penso sobre há mais de muitos anos. Desde os tempos em que ficava entrincheirado na biblioteca da UFSC na hora do almoço lendo as National Geographic da década de 80. Eram os alpes sempre presentes. Na verdade desde Zermatt a sensação de estar pisando na história do alpinismo já era fato, mas estar em Chamonix, de onde partiram pra escalar o MontBlanc no absurdo ano de 1786 era realmente impressionante. O alpinismo tinha mesmo que ter nascido ali e ter esse nome. Não era realmente possível que alguém vivesse por muito tempo naquelas bandas sem tentar subir as agulhas e cumes gelados que teimavam em tocar o céu.

Chamonix sob chuva 
Rótulo sugestivo :-) ?
Isso com vinho me manteria vivo por 1 ano
Almoço
UTMB onipresente
Tempo abrindo 
Lá em cima...
O Mont Blanc visto desde o hostel, aos pés do Brevet
Ali me vi dividido. Como em Zermatt, flagrantes de provas de endurance. Lá era a ultraks, uma ultra de 46 km aos pés do Mattherhorn, já com placas de sinalização a uma semana da prova. Já em Chamonix a Ultra Trail du Mont Blanc, ou UTMB. Nos minimercados, farmácias e padarias, e obviamente em toda e qualquer loja de material esportivo, lá estava o folder da prova que aconteceria em 20 dias. Praticamente uma revista. Ali aprendi sobre provas que existem dentro do mesmo evento e ainda nessa viagem decidi que vou correr a CCC.

Voltamos pro hostel munidos de vinhos de três espécies e quando a luz da cozinha apagou fomos dormir. Telefonei (Skypeei seria mais adequado) pra casa. Saudade...

Na quinta acordei a hora que abri o olho. Chuva das grossas. Saímos pela cidade para achar o clube alpino. Que coisa organizada ! Impressionante. Ali a coisa era muito mais aberta do que em Zermatt. Os franceses tem uma lógica simples sobre as montanhas: estão ali para que as pessoas desfrutem. Informações bem claras, sem nenhuma exigência tácita de guias o tempo todo. Obtivemos previsões detalhadas e eram as melhores possíveis. Ânimo geral. Pesquisamos equipamentos, comemos baguete e queijo até não poder mais, almoçamos.

No fim de tarde não resisti e fui correr. Uma pequena abertura de céu azul era o que eu precisava, saí às 19:30 pra direita. Em 800 metros achei uma trilha subindo. O vale onde Chamonix fica é muito estreito. Não sei se tem 1 km de um lado ao outro, de forma que na encosta onde ficava o hostel era só subir um pouco e achar caminhos por todo lado. Segui subindo as trilhas perfeitas, enfiando os pés nas poças dágua sem medo. Bebi água transparente. Vi umas lebres e mais uns malucos correndo. Voltei depois de 40 min e quando vi estava em cima do teleférico ao lado de casa. Olhei pra frente e lá estava o MontBlanc aparecendo pela primeira vez, deveria ter vindo com a GoPro. Resolvi descer por ali. Uma trilha íngreme não é páreo para aquilo. Simplesmente despencava, não dava pra correr. Cheguei embaixo com os dedos dos pés doendo e as coxas pesadas, achando que tinha feito besteira. A subida do MontBlanc começaria em 36h. Mas entrei no hostel extasiado. Onde já se viu não correr em Chamonix :-D ???

Cozinhamos no hostel novamente, mais vinho e falar com a família em casa. No dia seguinte saímos para alugar botas e crampons. Acabei não comprando a bota na Suíça e ainda estava indeciso sobre ir com a minha de trekking que tinha me congelado os dedos no Licancabur. Acabei escolhendo uma Scarpa igual à que o Adriano alugou. Dez euros por dia, muito barato. Ele pegou um crampon também. Comprei uma mochila de ataque e um windstopper. Iríamos só como mochilas pequenas depois de aprender que os refúgio por lá tem até roupa de cama e serviço de restaurante. O problema foi me aguentar depois todo o tempo com aquela camisa de primeira pele da solo, um termopro que é uma beleza mas quente pra burro dentro do refúgio.

A sexta terminou logo depois do jantar. Falei com a base novamente, avisei que só daria notícias na terça-feira. Normalmente prefiro deixar uma folga do que criar expectativa e preocupação em casa.

Sábado amanheceu com céu azul e saímos cedo rumo à Saint Gervais, 20 km de Chamonix. Lá pegaríamos o trem que sobe até Nid d'Aigle a 2300 m e então começaríamos a caminhada. Fomos de carro e consegui errar o caminho um pouco, passamos ao lado da fábrica de testes da Quechua e finalmente achamos a estação. Deixamos o carro no estacionamento público e pegamos o trenzinho.

O negócio vai parando em várias estações até chegar no ninho da águia, com vistas impressionantes para a Aiguille du Gouter, o espigão de rocha que tem o refúgio pendurado lá em cima, algo surreal aquilo sob todos os pontos de vista. Chegamos em Nid e arrumamos as tralhas para começar a pernada. Uma trilha bem marcada, beirando o glaciar Bionassay até o platô do refúgio Tête Rouse, a 3100 m. Lá equipamos com crampons e piolet e seguimos numa encosta mais inclinada até o início do grand colouir, uma garganta de rocha e neve bem inclinada por onde despencam pedras o tempo todo. A falta de neve nos invernos e o rápido derretimento no verão tem criado um problema sério - em toda parte exposta recentemente em qualquer cadeia de montanha o que se tem é rocha 'podre', que esfarela e cai o tempo todo. Ali era o ponto mais arriscado da via, objetivamente falando. O risco estava bem ali e visível. Mas passamos tranquilos, apesar do avançado da hora (o ideal é passar cedo pois o sol ainda não está batendo na parede e o frio 'segura' as pedras no lugar).

Estação de trem para o Nid, em St Gervais a 500 m de altitude !
Nesse dia dormimos a 3860 m
Zoom no refúgio, parece uma nave espacial estacionada

Uma trilha de doer os olhos de tão bonita
Trilha
Essas vistas valem tudo e mais um pouco, acima das nuvens com os pés no chão...
Nos equipamos para passar conectados ao cabo de segurança e fomos em duas cordadas, uma de cada vez. Recolhemos todo o equipo no outro lado e começamos a subir o que pra mim foi a parte mais legal do dia: uma crista de rocha bem inclinada, uma escalaminhada sensacional com trechos de cabo de aço para ancoragem e visuais estonteantes para todos os lados. O refúgio ficava bem acima da cabeça, uma caminhada vertical.

Chegamos lá depois de 7 horas desde o trem, ali pelas 16h. Fiz o checkin no refúgio e fomos pros quartos descansar. Aí depois fui passear por fora daquela estrutura impressionante. A coisa toda foi construída em 2 anos para substituir o refúgio antigo, a uns 200 m de distância na mesma crista da Aiguili du Gouter. Uma obra de engenharia fantástica, feita de concreto, alumínio e madeira. Uma madeira linda, robusta e termicamente um perfeito isolante. O refúgio não tem aquecimento e fica um forno durante o dia. Foi construído todo embaixo no vale e então desmontado e transportado de helicóptero até ali. As fundações na rocha foram preenchidas de concreto pronto trazido também de helicóptero. Aqui tem um vídeo bacana.

Jantamos e logo fomos tentar dormir. O sol só se põe às 22:30 e só foi possível deixar aquilo tudo lá fora por saber que em poucas horas partiríamos para o cume. O combinado era acordar às duas da manhã e sair logo em seguida.

Muito difícil ir dormir com isso do lado de fora...
Na hora do 'café da madrugada' reunimos todos numa mesa e o Juan confirmou que não subiria, uma pena. Fiquei bem chateado por ele mas satisfeito por ele ter tomado a decisão que julgou melhor. O Adriano me deu outro susto quando começou a enjoar e dizer que não tinha dormido absolutamente nada. Não comeu coisa nenhuma, mas quando o vi na sala de equipamentos na saída do refúgio só perguntei se ele queria ir. Como a resposta foi sim, tudo bem. De um jeito ou de outro chegaríamos lá.

Equipamos completamente e saímos. Uma noite não muito fria, não estava muito abaixo de zero grau. Céu absolutamente estrelado e lá embaixo no vale dava pra ver as luzes da cidade. Impressionante como é perto e longe ao mesmo tempo. Resolvemos equipar em uma cordada só de 4 pessoas, evitaria carregar uma corda a mais e faria o grupo ficar todo junto, gostei da ideia. Só fiquei preocupado em termos que separar por alguma razão, mas eu estava equipado com um canivete e rapidamente partiria a corda em duas se fosse preciso.

Começamos a caminhar lerdamente para aquecer e logo as rampas inclinadas vieram. As luzes subiam todas em zigue zague pela encosta, e fui na frente encontrando um caminho mais lógico. Paramos com pouco menos de uma hora para descansar quando a inclinação diminuiu, quase no topo do Dome du Gouter, o primeiro falso cume que se vê desde o refúgio, na verdade ele mesmo um 4000 dos alpes. Acabei puxando um pouco mais o ritmo até ali pra aquecer e vi que o Adriano conseguiu comer um gel, tudo bem.

Seguimos então com o dia amanhecendo, uma coisa sempre única nas montanhas. Ali me deu uma sensação muito boa, praticamente tudo que fizemos na última semana, todos os preparativos da viagem e os treinos (no meu caso, só de condicionamento e nada técnicos :-) tinham aquela escalada como objetivo. Fui seguindo tranquilo e por vezes até assobiando uma musiquinha grudenta. Chegamos no refúgio Valoit, um contâiner de metal usado para emergências, a 4400 m de altitude. Na verdade dado o pico da temporada e a lotação dos refúgios, sempre tem bastante gente de fato pernoitando ali, mas para os padrões dos alpes é uma noite muito alta e normalmente o pessoal passa mais trabalho do que viesse do Tête Route por exemplo.

Passamos por mais um falso cume, descemos levemente e então chegamos na base da Bosses Rigde, uma aresta bem técnica e que já estava um pouco complicada pelo vento. Coisinha estreita, fui guiando com um precipício bem horripilante do lado direito e o sol terminando de nascer do esquerdo. Tivemos que botar os óculos. Mais uma crista e então um col e a aresta final do Mont Blanc.

O Adriano me passou 845 vídeos da escalada do Mattherhorn e do MontBlanc, vi youtube até não poder mais, mas nada se compara a ver com os próprios olhos. Que coisa espetacular. Duas respiradas a mais e seguimos pra cima, ali não dava pra ficar parado nem pelo exposto do lugar nem pelo frio desgraçado que estava. Era andar pra cima até chegar.

Entramos na aresta que se projetava pro céu sem deixar o cume aparecer. Muito legal seguir assim, só depois de muito tempo vimos um grupo lá em cima e então já podíamos ver tudo em 360 graus. Cume, momento mágico que é a cereja no bolo, pois o divertido e difícil é a jornada. E só é a metade. Apenas no vale é que se pode dizer que escalamos alguma montanha. Ficamos pouco tempo lá, açoitado que estávamos pelo vento. Pouco até demais, acho que nunca desci tão rápido de um cume, nem soltar as cordas e tirar as mochilas tiramos. Pra felicidade de todos a subida saiu em 4h45min, um tempo muito bom.

Começamos a descida com o Anastácio na frente e logo pegamos tráfego subindo. Momentos bem críticos ali naquela aresta. Tinha que se agachar com os pés pra fora da aresta pra outra pessoa passar, todos encordados com as cordas se misturando a crampons e piloets, nada saudável. Numa dessas eu fui deixar alguém passar e quando voltei à aresta tropecei e deu um capote pro lado de fora. Terminei seguro no piolet e enrolado na corda. Um pouco antes o Nilson caiu num buraco de neve e deslizou pra fora da aresta, mas eu consegui deter a queda facilmente. Descida sempre é algo arriscado, estamos mais cansados, já desfocados e é ali que as merdas mais acontece. Foco, foco, foco. Seguimos assim até o Valoit e então paramos para descansar. Ali resolvemos desencordar pois eram só rampas já conhecidas e agora de dia era muito mais tranquilo. O Anastácio e o Nilson foram na frente e fui depois com o Adriano, tiramos fotos até não poder mais, chegamos no refúgio depois de 7h45 de escalada.


Topo da Europa ! 4810 metros acima do nível do mar !
Brothers in the summit
Tivemos uma votação e confabulação nessa hora. Era possível descer, mas era tarde, estávamos bem cansados e descer o Colouir daquele jeito poderia dar encrenca. Resolvemos ficar (até porque a diária de 60 euros por pessoa já estava paga) e curtir mais um dia no refúgio. Só faltava um banho. Na verdade faltava só água corrente. Como não tem muita neve, o refúgio racionava água, só nas torneiras da cozinha. Nem nos banheiros, pois a privada era a  sucção como nos aviões. A técnica era sair do banheiro e descer os três andares até a parte externa, esfregar bem as mãos na deve para liquefazer a água e voltar.

Ficamos no refeitório, cada um desmaiado em uma mesa e então comi um omelete com coca-cola. Foi como injetar energia nos músculos. Depois fui dormir um pouco, ouvir música e esticar o esqueleto. Ali pelas 19 horas saí pra dar uma volta com o Juan, subimos a primeira crista e fizemos várias fotos. Ainda estava um sol de rachar, céu totalmente azul e muita gente ainda descendo lentamente da montanha, uns passaram bem destruídos.

Juan com a Aiguille du midi ao fundo
Agulha Bionassay, mais um 4000 dos alpes
Juan
Depois encontramos um português que nasceu em laguna/SC e que vive em Paris. Ele estava de férias e com a previsão boa resolveu vir correndo para tentar a escalada. Fácil assim ;-). Ele não tinha reserva no refúgio e ia fazer o que vimos uns caras fazerem na noite anterior: ficar no refeitório até às 3, quando quem vai escalar sai. Aí perde a cama, o sujeito se mete lá e descansa até umas sete e então quando os cuidadores do refúgio vão fazer a limpeza os caras saem pra escalar. Percebi isso quando desci as escadas para o café antes do cume e um cara me perguntou o número do meu beliche. Só os locais podem arriscar a fazer isso. Nós tivemos que reservar o refúgio um mês antes e acertar o dia, era tempo bom ou nada. Dessa ver foi tempo mais que bom !

Voltamos para jantar e então hora de dormir, e dessa vez dormi feito um tijolo, direto até às 6 e pouco e então começamos a descer em seguida. Crampons até o refúgio velho e então encaramos a descida da crista, bem legal. Na verdade muito doida aquela parte... De volta ao começo da travessia do corredor de pedras, vi que o Anastácio já estava do outro lado. Não quis esperar e foi como quase todos que passaram ali àquela hora, desencordado por uns trechos de neve mais acima. Como estava cedo o sol ainda não batia lá foi realmente mais rápido e seguro passar daquele jeito. Só não poderia escorregar e não conseguir travar, senão... Continuamos a descer passando o Tête e entramos na trilha de volta até o Nid d'Aigle. Lá reunimos o povo e pegamos o trenzinho de volta a St. Gervais. Ali finalmente acabou a escalada. Não termina no cume, só termina quando se está de volta ao vale ! Que pernada ! E que escalada sensacional, um privilégio.

Resgatamos o carro e fomos pra 'casa' em Chamonix. Foi um dia de recuperação ativa e descanso, além de arrumar as tralhas e separas as roupas inutilizadas em sacos hermeticamente fechados. Fomos ao centro de montanhismo pegar infos das escaladas em rocha. À noite saímos para tomar cerveja e comemorar mais.

Na terça-feira seguimos para o setor de escalada em Les Gaillands, uma área fantástica a 2 km do hotel. Antes fui alugar a sapatilha para rocha, pois esqueci a minha. E saí de lá preocupado e triste, a notícia na cidade era de um acidente na via dos três montes para o MontBlanc, duas italianas e um guia foram pegos numa avalanche depois de um desabamento de serác.

Seguimos para a escalada, um centro de atividades ao ar livre, com trilha para corrida, lagos, circuito de arvorismo e claro, um monte de vias esportivas num campo escola de fazer inveja. Cheio, muito cheio de gente, de todos os tipos. Todo mundo com livro de croquis das vias, gente chegando de roupa 'social', trocando e escalando uma ou duas vias e indo embora. Gente com criança bem pequena, gente bem velha. Como tudo por lá, a montanha está por todos os lugares na vida das pessoas.

Ficamos bastante tempo, eu escalei 3 ou 4 vias e incrivelmente guiei uma. Coisa genial escalar rocha no vale com o MontBlanc às costas, sempre lá, vigiando. Visual indizível. Chamonix é, digamos, SENSACIONAL.

Depois de voltar pro hostel não aguentei e fui conferir as trilhas que vi antes. Voltei correndo pela cidade e logo estava no parque novamente, entrei na primeira trilha que vi e fui até bater 7 km. A vontade era continuar, já estava em Les Houches. Um rio do lado deixava a floresta totalmente úmida e cheia de névoa no sol de fim de tarde. Acho que se pudesse ficaria ali correndo até acabarem as pernas... De volta ao hostel saímos de novo para circular pela cidade, vimos uma apresentação de rock com um gurizinho destruindo na bateria e a loja da north face com os kits da ultra trail du mont blanc em exposição.

Adriano subindo pelas paredes
Escalando !
Hora do rango
Cumbre !
Mont Blanc ao fundo !
Lyon

Aí então decidimos que era hora de turistar e quarta-feira saímos de carro rumo à Lyon, no sul da França, onde chegamos lá pelas 14 horas. Turismo convencional de fim de escalada é sempre bom. Achamos ruínas romanas na terra do asterix e fomos pernar pela cidade. A cidade tem uma parte antiga medieval que é muito bonita, com vielas e ruas com escadarias que não acabam nunca, um labirinto onde nos perdemos algumas vezes antes de achar um lugar pra almoçar.

A quinta foi o dia livre e descobrimos que era feriado nacional, tudo fechado. Não dava pra ir em nenhum museu. Descobri isso quando sai para correr às 8:30. Fui até o parque Tête d'Or e dei uma volta completa para então retornar. Achei estranho o trânsito tão calmo mas ainda assim saímos do hotel dispostos à conhecer o segundo maior museu da França depois do Louvre. Mas o desgraçado estava fechado. Tudo estava, então estabeleci contato com o Adriano, que estava no hostel e marcamos de encontrar no ponto de bicicletas na igreja St. Jean. Lá pegamos eu e ele mais o Nilson três bikes urbanas e andamos a cidade toda por 3 horas.

Depois de rodar por tudo eu já estava esfomeado além da conta e achamos um restaurante ótimo na praça principal. Ficamos ali até quase às 19 horas e the end, foi começar a voltar. Arrumei as tralhas e soquei tudo que não precisaria na mochila cargueira, fiquei só com a pequena com roupa pra um dia e coisas miúdas.

Vista da parte antiga
Ruína romana na gália
Tem tempo, essa pedra...
Restos de colunas de mármore
A parte antiga, subidas e ruelas estreitas
Almoço 
Noturna
Ponte de pedestres
Ponte de carros. Rio Rhône
Basílica, impressionante por dentro
Saímos de Lyon bem cedo na sexta-feira rumo a Milão, onde pegaríamos o voo de volta. Dirigi pelos quatrocentos e poucos quilômetros de auto estradas, parando pra almoçar sanduíche na praça da cidadezinha italiana de Susa, realmente um lugar muito sossegado. Depois de vários pedágio e túneis e visuais de parreiras chegamos no aeroporto. Abastecemos o carro um pouco antes e então foi só despachar a tralha toda, despedir da galera e pegar o voo da Luft pra Frankfurt. De lá segui pro Rio e então pra casa, finalmente, sábado às 10 da manhã. Saudade monstruosa.

Conheci Frankfurt
Uma viagem que há tempos queria fazer, escalar nos alpes. O alpinismo só poderia mesmo ter nascido lá. Não tem como não achar impressionante aquelas montanhas, que apesar de já extremamente 'civilizadas' ainda são montanhas e são selvagens. E são afiadas e pontudas, e aquele mar de gelo é hipnotizante, mas também é mortal. É preciso respeitar. Um resultado excelente em todos os aspectos. De uma paulada só escalei e corri nos alpes. E o bichinho para correr uma ultra lá foi plantado.

Um fato muito marcante pra mim aconteceu num jantar que cozinhamos no hostel logo ao voltar do MontBlanc. Estávamos na maior algazarra na cozinha, e realmente os demais estavam mais quietos. Até que um sujeito veio nos mandar 'calar a boca'. Assim bem seco, num inglês perfeito mas não nativo. Estranhamos todos, achamos esquisito e continuamos a falar alto, mas com moderação, tentando adivinhar qual era a do cara e de onde ele vinha. Até que o cara veio de novo pra perto da mesa fazer não sei o quê e o Anastácio perguntou se estávamos incomodando muito. O cara se desculpou, disse que não, etc e aí entrou no papo. Era israelense e estava fazendo um curso de escalada alpina e iria escalar o que encontrasse pela frente. Ficou um pouco impressionado quando dissemos que escalamos o Mont Blanc sem guia e depois perguntou se éramos amigos viajando juntos. Respondemos que sim, claro, eu e o Adriano éramos irmãos e os demais todos amigos. O cara comentou algo que não lembro as palavras certas, mas foi parecido com "puxa, espero um dia quando ficar mais velho poder fazer uma viagem com amigos assim, deve ser muito legal". Fiquei matutando naquilo. Era realmente um privilégio sem tamanho.

Ouvi muitas vezes que não deveria ir para essas viagens de montanha, mas nunca da minha família, meus pais. Você tem que fazer o que lhe acrescenta. A vida não é só pra ser sobrevivida, mas vivida. E isso envolve sonhar. E depois ousar e realizar. O que me lembra de um email do meu amigo Alexandre, que eu acho que vou guardar por muito tempo... aqui um pedaço:
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Tenho visto algumas fotos pelo face da Simone. Que show hein!!! 
Não tem como não me emocionar, afinal minha vida inteira admirei e "viajei" muito curtindo fotos nas paginas da National Geografic, e de repente tem o meu amigo lá, nas mesmas fotos que muitas vezes na vida achamos inacessível. PARABÉNS meu velho, não só pela conquista do pico, mas principalmente pela atitude de mostrar que é só sonhar e depois tirar do papel. É só ir lá e conferir ao vivo. 
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É isso.

Adriano, eu, Nilson, Anastácio, Juan, The Expedition Team !
O Filme !





Valeu ! Até a próxima...