Planejava há algum tempo pedalar de Urubici a São Joaquim, na nossa gelada serra geral. Neste final de semana os planetas se alinharam, a previsão do tempo era boa, pouco vento. Acreditei.
Domingo cedinho saí e deixei o carro no posto de gasolina. Tomei um café preto, comprei água e fui, uma camiseta dry por baixo. Deixei outra comprida e o tapa-orelhas. Apesar de verão, Urubici quase sempre contém algum frio. Mas no dia anterior fez calor e a previsão era de abrir o sol. A neblina cedo é comum. E eu fui pra batalha desarmado.
Saí pedalando pelo centro da cidade e logo começou a serra do Avencal, que leva à cachoeira de mesmo nome. Iniciei a subida e fui aquecendo, passei mirantes, etc. Show. Lá pelos 2/3 da subida comecei a atravessar uma neblina grossa que foi se transformando em nuvem. Não era uma chuva, mas molhava tudo e muito bem. Asfalto fazendo spray. Continuei subindo pensando no miserável que fez aquela previsão do tempo. A subida é LONGA. Não acabava e pensei seriamente em voltar, mas já tinha planejado e ajeitado tudo, saído cedo e já estava na estrada, além do que queria fazer esse pedal. Continuei e quando finalmente a subida acabou a descida ficou tensa, tudo molhado e neblina mais grossa. Tive um pouco mais de tranquilidade por ter levado um backlight vermelho. Os poucos carros que passavam logo sumiam na neblina. E então o asfalto secou e do outro lado da serra, a uma altitude menor, o céu estava mais aberto. O cume da serra fica a 1600 m, as nuvens deveriam estar bem naquela altitude.
Começou a descer e lá veio o frio sem o esforço da subida. E nada do sol aparecer. Fui pedalando pelas
highlands catarineses, um terreno ondulado até perder de vista, até que um monte de motos de estrada começou a passar. Depois de um tempo passei por uma parada, o pneu estourou e por pouco o casal não foi pro chão. Segui com a missão de avisar alguém na próxima (e única) localidade do percurso, o vilarejo de pericó. Não tem nenhum posto de gasolina ou lugar pra comprar nada em 47 km.
Bem na curva principal da 'cidade' vi uma van do SAMU. Um cara de moto caiu na curva e quebrou umas partes, mas já estava bem tagarelando de dentro da ambulância. Avisei do cara com o pneu furado lá atrás, não era amigo deles mas foram lá ajudar. Segui.
De Pericó em diante sobe de novo, e vai subindo pelos campos de altitude. Pastos, fazendas, muros de taipa, morros e amplos visuais. Segui pedalando numa boa até o trevo do Cruzeiro, entre Bom Jardim da Serra e São Joaquim. Retornei dali mesmo, queria pedalar 4 h e já estava com 2h13.
Voltei e tinha um mínimo vento contra, que gelava tudo ainda mais. Já estava desesperado por sol. A previsão dizia 9-11 graus no topo da serra. Aprendi a nunca mais sair por lá sem um corta-vento. Segui pedalando mais forte pra tentar aquecer e logo passei pelo casal de moto, já com a dita em cima do guincho. Trocamos acenos e segui pra subida de volta.
No topo da serra novamente neblina, agora com o asfalto seco e pouca água dentro da nuvem. Só que o frio ainda estava lá, e descer totalmente dentro de uma nuvem não é legal. Então calcule o tamanho da friaca: 12 km de descida, leve vento contra. Temperatura de uns 12 C no máximo e só uma bermuda e camisa de manga curta. Não consegui curtir a descida, congelado e apavorado que estava com eventuais carros descendo, pois não dava pra enxergar quase nada mesmo. Duro feito picolé, fui descendo freando o tempo todo, não consegui aproveitar os efeitos gravitacionais dessa vez. Além disso, o asfalto ali não é muito bom e trepida demais a bike. Lá no final da descida já tinha um pouco de sol e finalmente algum calor. Pra quem pensou que ia fritar no sol, foi uma gelada. Cheguei no carro com o beep tocando 4h de treino em altitude.
O pedal é excelente. A estrada tem praticamente nada de trânsito e o asfalto é razoável. O que vale é o visual, que era excelente mesmo nublado. Não há acostamento, mas também não há carros :-). E a altimetria é das mais azedas e desafiadoras, belo treino de força em baixa cadência. Coisa muito boa mesmo. A repetir em breve.
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Track do garmin. Repare na velocidade, a impressão é que MTB seria mais rápido,
praticamente não há plano nenhum e as descidas vibram demais na TT
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Início da descida depois da primeira serra, bem cedo.
Pedal no topo da serra